Terra firme

Anna Gonçalves

Cheguei enfim aos meus vinte e tantos anos,

tempo de salto, de curva e um certo espanto.

Sem filhos, anel de ouro, casa própria e carro,

apenas trabalho, faculdade, alimentação,

porque é assim que funciona, comer para trabalhar,

e ter que trabalhar para comer. 

Pois sem os dois, não dá pra sobreviver. 

 

Na adolescência, eu geria um plano.

Queria o reino, o leme, o ano.

Talvez porque cedi cedo demais

à lucidez dos adultos que foram meus pais. 

Sabia bem que a carga da autonomia

exigia o tempo que ainda viria.

 

Eu era a rama do sentimental,

buscando e imaginando o molde do amor ideal,

vivia de pura projeção e nas entrelinhas,

apesar das cenas que vi tão perto,

o afeto torto num lar incerto,

o amor tóxico, a dor de raiz,

que minha mãe repetiu, insistiu e quis.

Nos meus 15, veio a primeira desilusão...

E eu vi nos meus olhos, através do reflexo do espelho, que havia muito chão.

Minhas amizades?

As amizades era a pátria e o altar

até o tempo nos desandar.

Pois o colega daquela idade

não sobrevive à maturidade.

Aos 19, mudei a cidade, o crachá, a lousa,

a faculdade, a rotina a andusa.

Chegava em casa esgotada, no chão,

pronta pro dia seguinte, pra labuta.

 

E agora... Já meio desacelerada, já com pensamento curto e leve,

vejo que o tempo veloz se eleve.

Faltam os dias pra o marco pronto,

eu cá me admiro do meu próprio ponto,

tenho a mesma sede de aprender, amar e viver,

pois sei tão pouco do que hei de ser,

frente aos mestres que encontrei no meu caminho, que sigo e olho tanto,

lá no alto dos seus muitos anos de encanto.

  • Autor: Ana Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 19 de agosto de 2026 01:05
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 6
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