Cheguei enfim aos meus vinte e tantos anos,
tempo de salto, de curva e um certo espanto.
Sem filhos, anel de ouro, casa própria e carro,
apenas trabalho, faculdade, alimentação,
porque é assim que funciona, comer para trabalhar,
e ter que trabalhar para comer.
Pois sem os dois, não dá pra sobreviver.
Na adolescência, eu geria um plano.
Queria o reino, o leme, o ano.
Talvez porque cedi cedo demais
à lucidez dos adultos que foram meus pais.
Sabia bem que a carga da autonomia
exigia o tempo que ainda viria.
Eu era a rama do sentimental,
buscando e imaginando o molde do amor ideal,
vivia de pura projeção e nas entrelinhas,
apesar das cenas que vi tão perto,
o afeto torto num lar incerto,
o amor tóxico, a dor de raiz,
que minha mãe repetiu, insistiu e quis.
Nos meus 15, veio a primeira desilusão...
E eu vi nos meus olhos, através do reflexo do espelho, que havia muito chão.
Minhas amizades?
As amizades era a pátria e o altar
até o tempo nos desandar.
Pois o colega daquela idade
não sobrevive à maturidade.
Aos 19, mudei a cidade, o crachá, a lousa,
a faculdade, a rotina a andusa.
Chegava em casa esgotada, no chão,
pronta pro dia seguinte, pra labuta.
E agora... Já meio desacelerada, já com pensamento curto e leve,
vejo que o tempo veloz se eleve.
Faltam os dias pra o marco pronto,
eu cá me admiro do meu próprio ponto,
tenho a mesma sede de aprender, amar e viver,
pois sei tão pouco do que hei de ser,
frente aos mestres que encontrei no meu caminho, que sigo e olho tanto,
lá no alto dos seus muitos anos de encanto.
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Autor:
Ana Gonçalves (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 19 de agosto de 2026 01:05
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 6
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