Quando volto à casa,
a primeira coisa que vejo
é a cadeira.
Junto à janela,
no mesmo lugar
onde a manhã costumava entrar
e espalhar pelo chão
um arco-íris de luz.
Era branca.
Agora, amarelada pelo tempo,
parece esperar
por alguém que não volta.
Ali se abriam os jornais
nas manhãs demoradas.
Ali começavam os domingos,
antes que a casa acordasse inteira—
café sobre a mesa,
risos atravessando os cômodos,
um assobio perdido
entre a cozinha e o corredor.
E, no quarto,
o rádio ligado em AM,
trazendo de longe
um samba-canção,
um bolero,
alguma velha canção da MPB
falando de amores
que também pareciam eternos.
Hoje o rádio se calou.
Os domingos perderam o movimento.
A luz ainda atravessa a janela,
mas chega em penumbra
e repousa sobre a cadeira,
como quem vela.
Às vezes fecho os olhos.
Escuto passos.
Uma porta se abre.
Alguém ri.
O jornal se desdobra.
O rádio canta.
Mas abro os olhos.
Só a cadeira.
Amarelada.
Vazia.
E compreendo que algumas ausências
não ocupam um lugar na casa.
Ocupam a casa inteira.
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Autor:
Oswaldo Jesus Motta (
Offline) - Publicado: 16 de agosto de 2026 00:06
- Categoria: FamÃlia
- Visualizações: 3
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