Quando a Noite Ainda Não Terminou

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Quando a Noite Ainda Não Terminou

 

Há noites em que a alma

não deseja morrer —

apenas deseja

que o mundo pare de perguntar

por que ela ainda está aqui.

 

Então acendo uma vela,

não para iluminar o quarto,

mas para assistir à sua lenta agonia.

 

A chama dança como alguém

que sabe que será abandonado.

 

E eu compreendo.

 

Tudo o que amei

parecia destinado a partir:

as mãos, os nomes,

as promessas,

até mesmo aquelas versões de mim

que juravam permanecer.

 

Talvez viver seja isso:

uma longa cerimónia fúnebre

daquilo que ainda respira.

 

Caminho pelas ruas

como um homem que esqueceu

se está regressando para casa

ou apenas procurando

um lugar onde possa desaparecer

sem causar incómodo.

 

Os relógios continuam.

 

Que crueldade.

 

Eles não sabem que algumas horas

pesam mais do que anos.

 

No espelho,

meu rosto parece um túmulo

onde alguém ainda acende cigarros.

 

Pergunto ao reflexo:

 

— Afinal, o que estamos esperando?

 

Ele não responde.

 

Talvez porque já saiba.

 

Talvez porque eu saiba.

 

Lá fora, a madrugada começa a nascer

com aquela indiferença quase divina

de quem jamais precisou

pedir perdão por existir.

 

E, por um instante,

penso em abrir a janela.

 

Não sei se para deixar a noite entrar

ou para finalmente deixá-la sair.

 

A vela está quase no fim.

 

A cidade permanece acordada.

 

E eu continuo aqui,

com a mão sobre a maçaneta,

sem saber se estou prestes a partir...

 

ou simplesmente

a abrir a porta para mais um dia.



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