Alforria do silêncio

Anna Gonçalves

Onde outrora rugia a loucura e a turbulência em caos, hoje repousa um certo veredito.

Não há mais o verso postiço, nem a métrica vazia de quem

tentou emoldurar o nada em molduras de ouro falso.

O enigma desbotou, enigma o qual sempre foi minha dedicação a esfinge, antes imponente,

revelou apenas barro, uma estátua (construção de responsabilidade minha apenas) e pedestal de minha importância insossa,

exposta ao sol da  própria lucidez.

É a ressaca do meu ego que se alimentava de mistério e névoa,

um duelo contra um espectro que, ao ser iluminado,

confessou a sua própria finitude em mudez absoluta.

Hora extrovertido, para sucumbir aquilo que queria, hora em silêncio após o gozo tão temido. 

A vírgula então, virou um ponto final.

                           [Fechei a porta e verbalizei, até nunca mais]

Com um frio na barriga, mas com a certeza que era necessário após ser e ver a consequência. 

E o silêncio que agora me habita não é ausência de som,

mas a exuberância da minha própria presença completa.

Eu, que decifrava labirintos de palavras ocas,

encontro agora o desconforto bendito da estabilidade.

A paz, esse horizonte plano e vasto,

pode parecer um deserto e tedioso para quem se viciou no abismo e na euforia da projeção e esperança,

mas é, em verdade, o solo fértil onde o real cria raízes.

Onde havia o estrépito de uma montanha-russa emocional,

surge agora o murmúrio sagrado do cotidiano,

o brilho do céu que transmuta em ciclos precisos,

o afeto que não exige tradução,

e a solidez de um caminho que se constrói com as mãos livres.

O silêncio da outra parte, já não é mistério, é a rendição do seu próprio verso e versão.  É o muro intransponível

que protege a minha morada,

o preço  justo e libertador da minha própria alforria.

Não escuto mais o vazio, escuto a vida que pulsa fora da clausura.

Pois se o barulho findou, é porque a sanidade finalmente

reclamou o seu trono, e a finitude, mestre severa,

entregou-me o remédio que cura, 

cura a alma.

a liberdade de não precisar mais ser lida por quem nunca soube te escrever.

É a finitude que faz de cada segundo o maior remédio..

E hoje, então, consigo seguir na menor importância e voltar ao seu ser...

  • Autor: Ana Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 12 de agosto de 2026 17:12
  • Categoria: Amor
  • Visualizações: 1


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