Cartas de um Remetente Ferido

Freddie Seixas

1- Para minha mãe

Oi, mãe.

Eu não lembro a data.
Muito menos a hora.
Na verdade, nem sei quantos anos eu tinha.
Mas eu lembro daquele apartamento na cidade Tiradentes...
Um apartamento que hoje imagino ter sido uma grande conquista pra vocês, embora naquela época eu não soubesse o preço das coisas, o peso das contas, nem quantas preocupações um adulto precisa esconder para uma criança poder simplesmente...ser criança.
Eu lembro de estar no berço.
E isso é engraçado, porque existem tantas coisas importantes da minha vida que eu esqueci, mas lembro de mim em pé naquele berço, esperando a senhora aparecer com minha mamadeira de farinha láctea.
Eu adorava aquilo.

Talvez essa seja uma das minhas primeiras lembranças do mundo.
Eu esperando.
E você vindo.
Hoje penso que talvez minha primeira memória seja justamente essa: eu esperando alguma coisa boa e minha a senhora aparecendo para trazer.
E depois vieram tantas outras.
Os beijinhos.
Os abraços.
Os carinhos.
O jeito de cuidar.
A senhora talvez nem tenha percebido mãe, mas foi colocando amor dentro de mim antes mesmo que eu soubesse o que essa palavra significava.

E se hoje existe alguma coisa boa nesse homem que eu me tornei, se consigo abraçar, demonstrar, cuidar, dizer que amo, me preocupar com as pessoas...
isso veio de algum lugar.
Veio de você.
Veio da minha Rainha Célia.
Para os outros você pode ser Célia, Celinha, Tela, ou qualquer apelido que inventaram durante a vida...
Pra mim não.
Pra mim você sempre foi uma palavra só:
mãe.
A senhora sempre dizia que eu fui muito desejado.
Eu não sei quais eram seus sonhos quando pensava em ter um filho.
Não sei quantas vezes imaginou meu rosto antes de me conhecer.
Não sei se imaginava um menino parecido cmigo ou completamente diferente.
Mas gosto de pensar que, quando Deus decidiu onde colocaria aquele menino, Ele olhou para você e pensou...
é aqui.
E acertou.
Só que existem outras lembranças também.
Algumas que quando criança eu enxergava, mas não entendia.

Hoje eu entendo.
Lembro dos seus olhos vermelhos.
Seus olhos tão bonitos, muitas vezes maquiados (pelas palavras de: mamãe tá bem...)tentando disfarçar alguma coisa.
Naquela época talvez eu pensasse que fosse cansaço.
Uma gripe.
Qualquer coisa que uma criança inventa porque ainda não conhece a tristeza dos adultos.
Hoje eu sei.
Era choro.
Ou pior:
era o choro que a senhora tinha engolido.
E talvez uma das coisas mais dolorosas de crescer seja justamente essa: descobrir que enquanto eu brincava, minha mães travava guerras que eu não sabia.
Hoje consigo olhar para trás e perceber o quanto a senhora sofreu calada.
Percebo o quanto a casa da minha avó foi abrigo em alguns momentos.
O quanto existiram dias em que nossa casa tinha parede, teto, móveis...
mas não conseguia ser lar.
Porque lar deveria ser lugar de paz.
E houve momentos em que havia guerra.
Hostilidade.
Silêncio.
Ausência de amor.

Durante muito tempo eu tive raiva de algumas dessas lembranças.
Hoje tento compreender também o homem que foi meu pai.
Não para justificar tudo.
Algumas feridas não precisam ser justificadas para serem compreendidas.
Mas hoje sei que um homem também é feito daquilo que recebeu quando menino.
E talvez meu pai simplesmente não tenha conhecido o amor da maneira que eu conheci através de você.
Ele não teve a mãe que eu tive.
Talvez não tenha tido um pai como aquele de quem a senhora sempre falou com tanto orgulho, meu avô, um homem que conseguiu continuar sendo admirado pela família mesmo depois de partir.

Talvez algumas pessoas não saibam oferecer aquilo que nunca receberam.
Mas você soube.
Mesmo ferida, você soube.
Mesmo cansada, você soube.
Mesmo chorando escondido, você soube.
E eu cresci.
Enquanto eu crescia, a senhora lutava.
Meu Deus, como você lutava.
Se existe alguém que me ensinou que cair não significa ficar no chão, foi você.
A senhora talvez nunca tenha feito um discurso sobre força pra mim.
Não precisava.
Eu vi.
Vi você continuar quando provavelmente queria parar.
Vi você suportar coisas que hoje, adulto, eu não sei se suportaria.
E talvez seja por isso que, quando a vida aperta meu pescoço e eu acho que não vou conseguir, existe alguma coisa sua dentro de mim dizendo:
aguenta mais um pouco.
Só que tem uma coisa engraçada, mãe.
Eu cresci.
Virei homem.
Aprendi que homem precisa ser forte.
Que precisa resolver.
Que precisa aguentar.
Que precisa proteger.
Que precisa esconder certas fraquezas do mundo.
Mas quando dói de verdade...
eu ainda quero minha mãe.
Ainda quero seu colo.
Porque diante de você eu posso tirar a armadura.
Posso dizer que estou com medo.
Posso admitir que errei.
Posso dizer que não consegui.
Posso chorar.
Posso confessar que ainda não venci.
E existe uma certeza quase infantil dentro de mim de que, mesmo assim, você não vai me amar menos.

Talvez isso seja ser mãe.
Ser o único lugar onde um homem pode voltar a ser menino sem sentir vergonha.
E eu ainda sou seu menino, mãe.
Mimado às vezes.
Birrento.
Chorão.
Cheio de sonhos grandes demais e resultados que ainda não chegaram.
E eu preciso te confessar uma coisa que dói escrever: eu queria já ter vencido.
Queria muito.
Não apenas por mim.
Queria que a senhora pudesse desfrutar das coisas que eu ainda sonho em conquistar.
Queria poder dizer:
Agora deixa comigo, mãe. A senhora já lutou demais.
Queria proporcionar viagens.
Tranquilidade.
Conforto.
Momentos bons.
Talvez algumas coisas que você abriu mão enquanto cuidava de mim.
Ainda não consegui.
Às vezes me sinto um homem vencedor preso numa fase em que tudo parece fracasso.
Mas eu ainda vou tentar, mãe.
Por mim.
E por você.
E existe outra coisa que preciso dizer porque amo a senhora demais para fingir que não sinto.
Eu tenho medo.
Medo quando vejo a senhora deixando sua saúde de lado.
Medo de que o tempo seja mais rápido do que os meus planos.
Medo de finalmente conseguir aquilo que sonho e descobrir que demorei demais para dividir com você.
Talvez por isso eu me cobre tanto.
Eu queria conseguir cuidar de você com a mesma insistência com que você cuidou de mim.
E sei que nem sempre consigo.
Me perdoa por isso também.
Ao mesmo tempo, fico feliz vendo esse novo capítulo da sua vida.
Fico feliz pelo Valdemir.
Pelas viagens.
Pela estabilidade.
Pelos momentos em que vejo você sorrindo e penso que talvez, depois de tanta tempestade, finalmente alguém tenha lembrado de regar a rosa.
Porque sempre pensei em você assim.
Uma rosa.
Bonita, mas com espinhos suficientes para sobreviver.
E talvez meu pai não tenha sabido ser o jardineiro que você precisava.
Talvez a melhor coisa que aquele jardim tenha produzido tenha sido eu.
Seu cravinho. (Kkkkk)
E olha que ironia...
o cravinho cresceu.

Virou homem.
Criou barba.
Aprendeu a enfrentar o mundo.
Aprendeu a esconder o choro (nem sempre).
Mas ainda lembra daquele berço.
Ainda lembra da mamadeira de farinha láctea.
Ainda lembra dos seus olhos.
Ainda lembra dos carinhos.
Ainda lembra da casa da vó.
Das coisas boas.
Das ruins.
Das que eu entendia.
E principalmente das que só fui entender depois de adulto.
E se um dia alguém me perguntar se tive uma infância perfeita, provavelmente vou dizer que não.
Mas se me perguntarem se tive uma infância memorável...
eu vou dizer que sim.
Porque em todas as minhas lembranças existe alguma coisa sua.
Às vezes seu sorriso.
Às vezes suas lágrimas.
Às vezes sua força.
Às vezes simplesmente suas mãos cuidando de mim ou sua voz mandado eu entrar pra dentro de casa...
E talvez seja isso que eu esteja tentando te dizer nessa carta inteira: antes de eu conhecer o mundo, eu conheci você.
Antes de aprender o que era amor,
eu fui amado por você.
E antes de me tornar esse homem que vive tentando ser forte para todo mundo...
eu fui apenas um menino em pé num berço,
esperando a mãe voltar com sua mamadeira.
E ela sempre voltava.
Eu ainda estou tentando vencer, mãe.
Mas quando eu vencer,
se Deus me permitir,
uma parte dessa vitória vai voltar para as mãos de onde tudo começou.
As suas.
Com amor, do seu filho, Raul Costa Souza.

Por Freddie Seixas

  • Autor: Freddie Seixas (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 9 de agosto de 2026 16:58
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 6


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