Em que instante uma pessoa deixa de ser apenas uma pessoa? Quem percebe o momento em que ela abandona a própria vida e passa a existir na nossa? Ou será que algumas pessoas nunca chegam, apenas permanecem?
Não foi você quem entrou nos meus poemas. Foram os poemas que aprenderam o seu nome.
Desde então, encontro você nos lírios. Naquela banda que fez da poesia uma canção e que, desde você, já não consigo escutar sem que alguma parte do seu nome atravesse a melodia. Nos filmes que carregam o seu nome. Nas coincidências tão delicadas que parecem ter sido escritas antes mesmo de acontecerem.
Será que algumas pessoas sabem que existem em poemas que nunca leram? Ou atravessam a vida sem imaginar que continuam existindo na memória e na escrita de alguém?
Em que página você entrou sem pedir licença? E por que, entre tantos rostos, é justamente o seu que continua voltando sempre que uma folha permanece em branco?
Há pessoas que passam pela nossa vida. Você fez o caminho contrário. Passou a morar na minha escrita.
Talvez a inspiração não seja encontrar alguém. Talvez seja descobrir que algumas pessoas continuam escrevendo dentro de nós, mesmo quando já não fazem parte da nossa rotina.
Às vezes me pergunto se todos os versos que ainda escreverei carregarão, em silêncio, algum vestígio de você. Não porque digam o seu nome, mas porque, desde você, as palavras nunca mais souberam escolher outra direção.
Se você não tivesse ocupado algum lugar em mim, eu ainda estaria escrevendo? Será que um poeta escreve sobre aquilo que lhe é indiferente? Ou cada poema é apenas a tentativa de impedir que alguém desapareça?
Talvez você nunca reconheça estas palavras. Talvez passe por elas como quem atravessa um jardim sem perceber os lírios. Ou talvez, por um instante, reconheça aquela banda, os filmes que carregam o seu nome e todos os pequenos detalhes que ninguém mais entenderia.
Porque, no fim, os detalhes foram a única coragem que encontrei para falar de você.
E, se algum dia, você descobrir algum pedaço de si entre estas linhas, talvez perceba que nunca foi este poema que era sobre você.
Era você que sempre esteve dentro dele.
-L
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Autor:
Atrozesv (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 6 de agosto de 2026 00:30
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 1

Offline)
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