ASAS DA SAUDADE

Vilma Oliveira


Aviso de ausência de Vilma Oliveira
YES

Hoje sinto saudades das coisas que eu tive

No passado distante e no presente de agora

E das que nunca tive, que ainda em mim vive,

Como se existisse algo que em mim chora...

 

Esse teu rosto antigo de ontem que eu amei

Nem os santos conhecem mais do que eu...!

Na varanda aérea um dia qualquer me lancei

Mas um anjo abstrato depois me convenceu.

 

A ficar mais um tempo por aqui sempre perto...

Nas asas da saudade no verso que componho

Como tudo sem ti fica mais desolado e deserto

Como tudo fica embaçado depois do meu sonho.

 

É triste a realidade quando nós descobrimos

Que os nossos pedaços ficaram jogados...

Em algum lugar secreto onde nós dividimos...

Os sentimentos que já foram até sepultados!

  • Autor: Vilma Oliveira (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 5 de agosto de 2026 21:07
  • Comentário do autor sobre o poema: Na primeira estrofe, o eu lírico expande o conceito clássico de saudade. Ele sente falta do passado, do presente e, de forma brilhante e paradoxal, das coisas que nunca tive. Essa saudade do intangível ecoa a célebre tradição literária de sentir a falta de um ideal, de uma projeção abstrata que habita o íntimo e se manifesta como um choro silencioso da alma. A segunda estrofe eleva o ser amado a um patamar sagrado (Nem os santos conhecem mais do que eu) e confessa um momento de desespero existencial. A varanda aérea evoca uma imagem literal ou metafórica de queda, interrompida por um anjo abstrato. Esse anjo atua como a própria pulsão de vida (ou a própria poesia) que convence o eu lírico a resistir e transmutar o sofrimento em arte. Na terceira estrofe, a escrita assume o papel de âncora. O eu lírico aceita o chamado para ficar mais um tempo por aqui, contanto que possa navegar: Nas asas da saudade no verso que componho. O poema vira o único território habitável, já que o mundo real sem o outro transformou-se em um cenário desolado e deserto, onde a percepção da realidade se torna turva e embaçada. O desfecho traz uma das metáforas mais potentes do texto: a dos pedaços ficaram jogados. O fim de uma conexão profunda é encarado como um sepultamento. O eu lírico se percebe fragmentado, consciente de que partes de sua própria identidade foram deixadas para trás em um lugar secreto e inacessível, restando-lhe apenas conviver com os vestígios soterrados do que foi vivido.
  • Categoria: Não classificado
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