O Blues do Ferro Esquecido
Há um pedaço de caminho-de-ferro apodrecendo dentro do meu peito.
Todas as manhãs acordo para o sacudir,
não por coragem,
mas porque o silêncio pesa mais do que o metal.
Quando o ferro se move,
a ferrugem canta.
É um cântico sem Deus,
sem promessa,
o idioma antigo das coisas
que sobreviveram tempo suficiente
para deixar de esperar.
Então acendo um cigarro,
e o blues faz aquilo
que nenhuma oração conseguiu:
ensina a minha ruína
a respirar devagar.
A guitarra conhece o meu verdadeiro nome.
Não aquele escrito nos documentos,
mas o nome que a chuva pronunciou
enquanto me transformava
num portão esquecido,
num carril abandonado,
num prego dobrado
que ninguém voltou a precisar.
Há noites
em que penso ser apenas ferrugem
recordando a forma
do aço que um dia existiu.
Mesmo assim,
continuo a sacudir este esqueleto de metal,
como um homem que insiste
em acordar um motor morto,
porque existe uma teimosia absurda
em tudo aquilo
que se recusa a desaparecer.
Talvez a beleza
nunca tenha vivido nas rosas.
Talvez ela sempre tenha esperado
neste ferro gasto,
nestas mãos cobertas de poeira,
nesta alma que toca blues
para não enlouquecer.
E se algum dia
alguém pousar os olhos sobre este caos,
peço apenas uma única crueldade:
que não tente salvar-me.
Que escute.
Porque algumas almas
não foram feitas para voltar a brilhar.
Foram feitas para ranger lentamente
até que o universo inteiro descubra
que a ferrugem
também sabe cantar.
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Autor:
enitnatsnoC oãoJ (
Offline) - Publicado: 5 de agosto de 2026 19:13
- Categoria: Gótico
- Visualizações: 1

Offline)
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