fim

atrozeves



     é curioso.  Talvez Dostoiévski passo sua vida tentando compreender a alma humana. Talvez porque não exista nada mais confuso do que um coração tentando aceitar aquilo que a mente já entendeu. Em noites brancas, talvez tenha escrito sobre aquilo que sempre o antecede. A esperança. Porque basta uma esperança para alterar o rumo de uma alma. Talvez toda decepção comece exatamente assim. Silenciosamente. O ser humano é a única espécie capaz de escrever trezentas e sessenta e cinco cartas para uma única pessoa. Capaz de guardar flores secas entre páginas de um livro. Capaz de transformar saudade em tinta. Silêncio em versos. Alguém em poesia. Escrever sobre alguém nunca foi um gesto pequeno, é uma das formas mais silenciosas de dizer: "você ocupa um lugar dentro de mim". Um poma. É tempo. É memória. É atenção. É entregar um pedaço da própria existência sem nenhuma garantia de que o outro compreenderá o peso disso. Emily Dickinson escreveu  mais de mil poemas. Talvez porque existam sentimentos grandes demais para permanecerem em silêncio. Talvez escrever nunca tenha sido uma escolha. Talvez tenha sido sobrevivência . somos capazes de escrever as mais belas catas e amor, os poemas mais dolorosos, os versos mais sinceros, somos capazes de entregar o coração inteiro em poucas linhas. mas não somos capazes de escolher quem compreenderá o valor delas. Toda decepção nasce da mesma raiz. A esperança. Ela apenas muda de nome. As vezes é amor, ás vezes é amizade, ás vezes é um sonho, ás vezes é o futuro, mas continua sendo a mesma esperança vestindo  nomes diferentes. Talvez o coração seja o único lugar onde uma pessoa consiga ocupar mais espaço do que ocupa na realidade. E talvez... essa seja a verdadeira tragédia. Não amar, mas entregar um universo inteiro a alguém que enxergava apenas um punhado de estrelas. Enquanto alguém escreve trezentos e sessenta e cinco cartas,  o outro talvez nunca escreva uma única. Enquanto alguém transforma  uma pessoa em poesia, o outro mal se lembra do seu nome. E ainda assim o coração insiste. Insiste em imaginar, como se a esperança fosse mais forte que a realidade. Talvez seja por isso que o fim nunca aconteça quando alguém vai embora. O fim acontece muito depois, na madrugada ao encontrar uma lembrança ao reler uma mensagem, um poema, ao perceber que você foi capaz de oferecer o que havia de mais raro em si. Seu tempo, sua atenção, suas palavras. E descobrir que, para uma pessoa, isso nunca passou de uma terça feira qualquer. Talvez a decepção não doa porque alguém partiu. Talvez doa porque, pela primeira vez, percebemos que aquilo que parecia um universo inteiro para nós jamais deixou de ser apenas um detalhe na vida de outra pessoa.

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  • Autor: atrozeves (Offline Offline)
  • Publicado: 3 de agosto de 2026 00:40
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 2


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