O Louco

Lunix.L

A madrugada

A loucura não começa com gritos.

Aos dezessete anos, a loucura começa em silêncio, sentado no meio-fio de uma rua qualquer, às três da manhã.
Eu e o Léo estávamos lá. O asfalto ainda irradiava o calor do dia, e a única luz vinha de um poste intermitente que parecia ter arritmia cardíaca. A gente não falava nada. Não precisava. Naquela idade, o silêncio compartilhado é a forma mais pura de telepatia.
A gente se sentia dono da cidade, embora não tivéssemos dinheiro nem para o ônibus da volta. Havia essa sensação elétrica na pele, uma certeza absoluta de que éramos os protagonistas de um filme indie que ninguém assistiria. A loucura de ser jovem é essa: a arrogância da imortalidade.

A gente achava que o tempo era um recurso infinito, estocado em potes no fundo do armário.

Mal sabíamos que ele já estava escorrendo pelo bueiro ao nosso lado...

 

A festa

Existe uma "lei física" que diz: 'quanto maior a expectativa para uma festa, pior ela será'.
A festa na casa da Marina prometia ser o evento do século. Chegamos lá e a realidade era um som alto demais que impedia a conversa, uma bebida barata que tinha gosto de desinfetante de limão e pessoas suando em um corredor apertado.
Fiquei encostado na parede, segurando um copo plástico como se fosse meu escudo. Olhei ao redor. Vi sorrisos forçados, vi gente fingindo se divertir para postar a prova da felicidade nas redes sociais. E ali, no meio daquele caos sensorial, me senti um alienígena. A solidão no meio da multidão é um tipo específico de loucura. É olhar para cem pessoas e não se conectar com nenhuma. É a vontade súbita de correr para casa, colocar um pijama velho e fingir que o mundo lá fora não existe. Mas a gente fica. A gente fica pelo medo terrível de perder "alguma coisa" que nunca acontece...

Foi nessa festa que vi a Júlia.

Nos filmes, a luz mudaria, uma música lenta tocaria. Na vida real, ela tropeçou no tapete e derrubou refrigerante na própria blusa.
Júlia não era um ideal inalcançável. Ela não era misteriosa. Ela falava alto, tinha uma risada que parecia um grasnado de pato e roía as unhas. E foi exatamente isso que me desmontou. A gente se apaixonou não pela perfeição, mas pela compatibilidade dos nossos defeitos.
Conversamos sobre como shampoo de maçã verde nunca tem cheiro de maçã, e sobre o pavor existencial de ter que escolher uma faculdade. Não houve fogos de artifício. Houve apenas o alívio de encontrar alguém que falava a mesma língua estranha que eu.

O amor, descobri naquela noite, não é encontrar alguém para te salvar. É encontrar alguém que segure a sua mão enquanto o barco afunda.

 

Os dois tiques

A tecnologia nos deu a onipresença, mas nos tirou a paz.

A ansiedade de ver os dois tiques azuis na tela e o silêncio subsequente é a tortura moderna.
Mandei uma mensagem para o Léo. Ele visualizou. Uma hora se passou. Duas.

A mente adolescente é uma roteirista de tragédias.

Será que ele está bravo? Será que eu disse algo errado? Será que nossa amizade de dez anos acabou por causa daquele meme sem graça?
A paranoia se instalava. Eu relia a conversa obsessivamente, procurando pistas forenses de onde eu tinha errado. A verdade era banal: ele tinha dormido. Ou estava ocupado. Mas para mim, naquele quarto escuro iluminado apenas pela luz do celular, era o fim do mundo. A fragilidade das nossas conexões digitais nos deixa neuróticos, viciados em validação instantânea.

 

O espelho

Acordar e olhar no espelho era uma roleta russa.

Havia dias em que eu me sentia o rei do mundo. Havia dias, a maioria deles, em que eu me sentia um rascunho malfeito de ser humano.
O nariz parecia grande demais, o cabelo nunca ficava do jeito certo, e as espinhas pareciam ter coordenadas geográficas para nascer nos lugares mais visíveis. Mas a feiura que mais doía não era a externa. Era a sensação de ser uma fraude.
Todo mundo parecia ter um "talento", uma "paixão". Eu só tinha dúvidas. A pressão para ser excepcional, para ser um gênio, para "vencer na vida" antes dos vinte anos é uma máquina de moer carne. Eu me olhava e via apenas o comum.

E demorou muito para eu entender que ser comum não é um fracasso.

É a regra. E existe beleza na normalidade.

 

A erosão

As amizades de escola têm prazo de validade? Ninguém te avisa isso.

Léo começou a andar com o pessoal do "terceirão". Mudou as roupas, mudou as gírias, mudou o jeito de rir. De repente, nossas piadas internas não tinham mais graça. Ele falava de pessoas que eu não conhecia, de lugares onde eu não ia.
O afastamento não foi uma briga explosiva. Foi uma erosão lenta. Foi o convite que parou de chegar. Foi a conversa que ficou monossilábica. Perder um amigo dói de um jeito diferente de perder um amor. É uma amputação silenciosa. Você olha para o lado e o lugar onde aquela pessoa estava agora é ocupado por um estranho com o mesmo rosto do seu melhor amigo.

 

A mentira

Eu fiz uma escolha errada. Menti para meus pais.

Não foi uma mentira grande, dessas de filme policial, mas foi o suficiente para quebrar a confiança.
O olhar de decepção da minha mãe foi pior do que qualquer grito. A culpa física, aquela que aperta o estômago e tira o apetite, se instalou. Eu percebi que não era o herói da minha própria história. Às vezes, eu era o vilão.
Amadurecer é isso: perceber que você é capaz de ferir as pessoas que ama. Perceber que você não é puramente "bom". Aceitar sua própria sombra é a parte mais difícil de deixar de ser criança. Chorei no banho, onde a água quente mistura com as lágrimas e ninguém pode ouvir seus soluços. A limpeza ali não era física, era uma tentativa desesperada de lavar a consciência.

 

A terça-feira cinzenta

Eu e a Júlia terminamos numa terça-feira cinzenta.

Não houve traição, nem drama. Apenas a constatação fria de que caminhos diferentes nos levavam para lugares opostos.
Eu queria ficar na cidade; ela queria ir para a capital. O amor, que eu achava ser uma força onipotente capaz de dobrar a realidade, curvou-se diante da logística e da ambição.
Dói descobrir que gostar muito de alguém não basta. Dói ver que a vida prática atropela o sentimento. Ficamos sentados num banco de praça, chorando baixinho, de mãos dadas, terminando um namoro onde ainda existia amor. Foi meu primeiro contato com a resignação.

Às vezes, a gente perde ganhando.

 

A sala de prova

A sala de prova tinha cheiro de ansiedade e grafite.

O ventilador girava num ritmo hipnótico. Diante de mim, noventa questões que supostamente definiriam quem eu seria pelo resto da vida.
Que piada cruel. Como pedir para alguém de 17 anos, que mal sabe fritar um ovo sem queimar, decidir seu destino profissional? A caneta pesava uma tonelada. Olhei para o lado e vi outros "loucos" roendo tampas de caneta, balançando as pernas freneticamente.
Naquele momento, tive uma epifania: aquela prova não media minha inteligência, nem meu valor. Media minha capacidade de fazer uma prova. Respirei fundo. O mundo não acabaria se eu não passasse. O plano B, C e D existem.

A vida é sinuosa, não uma linha reta traçada numa folha de gabarito.

 

O ônibus

O Louco é a carta número zero do Tarô.

Ele representa o início, o salto no escuro, a inocência e, sim, um pouco de estupidez.
Estou no ônibus agora. O ensino médio acabou. O Léo seguiu a vida dele, a Júlia está na capital. Eu estou aqui, com meus fones de ouvido, vendo a cidade passar pela janela suja.
Não tenho todas as respostas.

Na verdade, tenho menos respostas do que tinha no Capítulo 1. Mas a angústia, aquela que apertava o peito, mudou. Ela virou curiosidade.
Ser jovem é ser esse Louco. É caminhar à beira do precipício, não por desejo de cair, mas pela vontade de voar. As cicatrizes das espinhas vão sumir, os corações quebrados vão calcificar e se tornar mais fortes. A "loucura" vai dar lugar à responsabilidade, dizem. Mas espero, sinceramente, que eu nunca perca essa vontade de sentir tudo à flor da pele.
O ônibus faz a curva. O futuro é um borrão lá na frente. E pela primeira vez, sorrio sem motivo. Estou pronto para o próximo capítulo.

 

- Escrito Por Zerando agora Lunix.L,
Seu Poeta e Escritor Amador...

  • Autor: Lunix.L (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 31 de julho de 2026 20:15
  • Comentário do autor sobre o poema: É curioso, mas esse conto foi publicado originalmente no Heartopia, na época em que eu escrevia textos curtos e sem muita estrutura. Depois de um tempo, decidi republicar aqui. É um texto livre, propositalmente simples, que reflete parcialmente experiências reais com personagens irreais... Aberto a interpretações pessoais.
  • Categoria: Conto
  • Visualizações: 1
  • Em coleções: Íntimos, Sociedade.


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