A Alma de Branco no Casarão do Sol

julianahoffmannliska

A Alma de Branco no Casarão do Sol

Nas montanhas do Sul,
onde o vento aprende a rezar
entre os pinheiros
e a neblina desce devagar
como um véu sobre a terra,
existe um velho casarão
que o tempo esqueceu de levar.

As janelas ainda recebem
o primeiro sol da manhã.

As paredes guardam
o perfume antigo da madeira,
das rosas secas,
do café passado em silêncio
e das cartas
que nunca chegaram ao destino.

Dizem que,
quando a tarde se despede
e o céu se veste de ouro,
uma moça de branco
caminha pela varanda.

Não assusta.

Não chama.

Não chora.

Apenas espera.

Seu vestido dança
como se o próprio vento
a conduzisse numa valsa
que nunca terminou.

Há muito tempo,
quando o casarão ainda conhecia risos,
ela amou um moço
de mãos marcadas pela lida,
olhos da cor das tempestades
e coração maior que os campos.

Encontravam-se
quando o sol se escondia
atrás das montanhas.

Falavam pouco.

O amor deles
não precisava de palavras.

Bastava o cheiro da terra molhada,
o canto distante de um quero-quero,
o calor de um café dividido
na mesma caneca.

Mas havia caminhos
que os homens traçavam
e que o coração jamais compreendia.

Ela era filha
da grande casa.

Ele,
filho do campo.

O mundo dizia
que amores assim
não atravessavam portões.

Mesmo assim,
continuaram sonhando.

Numa tarde de inverno,
o moço seguiu pela trilha
que cortava os penhascos.

Levava no bolso
um pequeno anel de prata.

Queria pedir-lhe a vida inteira.

O vento soprava forte.

A serração cobriu as pedras.

E a montanha,
que tantas vezes lhes servira de abrigo,
naquele dia
guardou para si
o último passo do rapaz.

Nunca voltou.

Encontraram apenas
o chapéu preso
entre as flores do abismo.

E o cavalo,
sozinho,
esperando junto ao caminho.

Desde então,
a moça vestiu branco.

Não como quem escolhe a tristeza.

Mas como quem decidiu
guardar a luz
de um amor
que nem a morte conseguiu apagar.

Todas as tardes,
ela abre a velha janela.

O sol toca seu rosto
pela última vez antes da noite.

Ela sorri para o horizonte.

Talvez porque saiba
que existem encontros
que pertencem mais à eternidade
do que aos dias da Terra.

Quando a lua nasce,
o casarão volta a silenciar.

Só permanece
o cheiro do café,
o perfume das rosas antigas,
o vento atravessando os corredores
e uma saudade tão delicada
que parece feita de luz.

Quem passa por ali
jura ter visto
o vestido branco
desaparecer entre as colunas.

Outros dizem
que ouviram dois cavalos
galopando juntos
sobre a relva molhada,
embora nenhuma pegada
tenha ficado no chão.

Mas talvez
não seja um mistério.

Talvez seja apenas o amor.

Porque existem histórias
que Deus não escreveu
para terminar.

Escreveu apenas
para permanecerem vivas
na memória do vento,
entre o sol,
as montanhas
e a eterna alma branca
do velho casarão do Sul.



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