A Alma de Branco no Casarão do Sol
Nas montanhas do Sul,
onde o vento aprende a rezar
entre os pinheiros
e a neblina desce devagar
como um véu sobre a terra,
existe um velho casarão
que o tempo esqueceu de levar.
As janelas ainda recebem
o primeiro sol da manhã.
As paredes guardam
o perfume antigo da madeira,
das rosas secas,
do café passado em silêncio
e das cartas
que nunca chegaram ao destino.
Dizem que,
quando a tarde se despede
e o céu se veste de ouro,
uma moça de branco
caminha pela varanda.
Não assusta.
Não chama.
Não chora.
Apenas espera.
Seu vestido dança
como se o próprio vento
a conduzisse numa valsa
que nunca terminou.
Há muito tempo,
quando o casarão ainda conhecia risos,
ela amou um moço
de mãos marcadas pela lida,
olhos da cor das tempestades
e coração maior que os campos.
Encontravam-se
quando o sol se escondia
atrás das montanhas.
Falavam pouco.
O amor deles
não precisava de palavras.
Bastava o cheiro da terra molhada,
o canto distante de um quero-quero,
o calor de um café dividido
na mesma caneca.
Mas havia caminhos
que os homens traçavam
e que o coração jamais compreendia.
Ela era filha
da grande casa.
Ele,
filho do campo.
O mundo dizia
que amores assim
não atravessavam portões.
Mesmo assim,
continuaram sonhando.
Numa tarde de inverno,
o moço seguiu pela trilha
que cortava os penhascos.
Levava no bolso
um pequeno anel de prata.
Queria pedir-lhe a vida inteira.
O vento soprava forte.
A serração cobriu as pedras.
E a montanha,
que tantas vezes lhes servira de abrigo,
naquele dia
guardou para si
o último passo do rapaz.
Nunca voltou.
Encontraram apenas
o chapéu preso
entre as flores do abismo.
E o cavalo,
sozinho,
esperando junto ao caminho.
Desde então,
a moça vestiu branco.
Não como quem escolhe a tristeza.
Mas como quem decidiu
guardar a luz
de um amor
que nem a morte conseguiu apagar.
Todas as tardes,
ela abre a velha janela.
O sol toca seu rosto
pela última vez antes da noite.
Ela sorri para o horizonte.
Talvez porque saiba
que existem encontros
que pertencem mais à eternidade
do que aos dias da Terra.
Quando a lua nasce,
o casarão volta a silenciar.
Só permanece
o cheiro do café,
o perfume das rosas antigas,
o vento atravessando os corredores
e uma saudade tão delicada
que parece feita de luz.
Quem passa por ali
jura ter visto
o vestido branco
desaparecer entre as colunas.
Outros dizem
que ouviram dois cavalos
galopando juntos
sobre a relva molhada,
embora nenhuma pegada
tenha ficado no chão.
Mas talvez
não seja um mistério.
Talvez seja apenas o amor.
Porque existem histórias
que Deus não escreveu
para terminar.
Escreveu apenas
para permanecerem vivas
na memória do vento,
entre o sol,
as montanhas
e a eterna alma branca
do velho casarão do Sul.
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Autor:
Jullyne and Jully (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 30 de julho de 2026 23:32
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 2
- Em coleções: POESIAS D\'Mundo.

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