Morgana

Lunix.L

Foi na sala fria de máquinas e telas, entre o zumbido baixo dos monitores, que eu vi Morgana pela primeira vez... não sabia ainda que era um véu que se erguia, achei que era um começo, não um convite pro fim. Ela sentou ao meu lado sem pedir licença e eu, sem saber, já estava dizendo sim a um casamento que ninguém tinha marcado.

 

Nos primeiros meses eu fui rei de reino pequeno, ela me olhava e eu achava que era pra sempre. Eu sou fogo do jeito mais puro que existe... nasci sem nada emprestado, sem filtro, sem verniz... e naquele início o fogo não se apagava perto da água dela, virava vapor, virava algo novo no ar. Não sabia que vapor também se desfaz, que todo encontro de elementos opostos carrega, desde o início, um prazo de validade. Eu me senti escolhido. Eu me senti raro. Não percebi que estava construindo um altar pra alguém que eu mesmo estava inventando.

 

Outubro chegou e trouxe um vento diferente... as palavras dela começaram a pesar menos, as minhas começaram a pesar demais. Ela, água funda que sonha mais do que vive, começou a picar sem perceber que picava, defendendo um território que eu nem sabia que invadia. Eu, seta impaciente, comecei a mirar pra longe antes mesmo de entender o que estava perdendo. Não houve queda. Houve um lixar lento, dia após dia, até o brilho virar poeira, um desgaste tão discreto que eu só vi o tamanho dele quando já não tinha mais o que salvar.

 

Não houve facada, não houve grito. Houve um silêncio que foi crescendo até virar mortalha. Eu vesti Morgana de branco na minha cabeça mas o que a cobria, no fim, era outro tecido... o da despedida. Ela morreu ali. Não o corpo, não a voz, não a pessoa real que ainda respirava em algum lugar... morreu a Morgana que eu tinha inventado, a noiva que eu casei sozinho, o conto que eu contei pra mim mesmo sem nunca checar se ela sabia da história.

 

Ela voltou batendo no caixão em março, pedindo pra sair, pedindo uma segunda chance. E eu... enterrado no meu próprio inverno, não abri a tampa. Não foi crueldade. Foi só que o frio já tinha tomado conta de tudo que era quente. Eu vi a mão dela estendida e a minha já não sabia mais como se estender de volta. Existe sempre um horizonte novo pra quem nasce arqueiro, e eu escolhi o horizonte. Ela escolheu ficar batendo num túmulo que eu já tinha decidido não abrir.

 

Dois anos depois, eu voltei ao cemitério que eu mesmo construí sem querer. E dessa vez eu não fugi da lápide, li o nome dela sem pressa, sem raiva pronta. Reconheci, finalmente, o desequilíbrio: eu esperava um mundo, ela oferecia um dia, e eu cobrava dela o preço do meu sonho como se a culpa fosse toda sua.

 

Veio um e-mail. Eu li, senti o peso antigo, e apaguei sem responder... não por desprezo, mas porque algumas portas a gente fecha com respeito, não com raiva. Às vezes penso que a gente nasceu já falando torto: eu cheguei ao mundo bem quando um planeta de mensagens tinha acabado de virar de costas pro tempo, e ela chegou quando a sombra disso ainda nem tinha nome. Talvez por isso a gente nunca tenha dito exatamente o que sentia, na hora certa, pra pessoa certa.

 

Não sinto mais o mesmo. Não sinto nada que doa. Sinto só a mágoa velha, que já não corta, só lembra que um dia cortou. Espero que Morgana, a real, não a que inventei, tenha achado a vida nova que eu também procuro. Que o luto dela por esse conto tenha virado, como o meu, um recomeço e não uma sombra. Fogo também aquece, não precisa só incendiar o que passa perto. Água também limpa, também deixa nascer de novo o que antes só sabia apodrecer.

 

Porque no fim, todo cadáver que a gente carrega é só a versão que a gente se recusou a deixar ir. E eu já deixei.

 

By Lunix.L

  • Autor: Lunix.L (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 30 de julho de 2026 17:10
  • Comentário do autor sobre o poema: "Morgana" é um dos meus poemas mais antigos e representa o fim de uma relação confusa vivida no ensino médio, que só agora tive coragem de publicar. O texto aborda a idealização de um relacionamento e a quebra dessa ilusão, além de outras interpretações...
  • Categoria: Amor
  • Visualizações: 1
  • Em coleções: Íntimos.


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