Houve um tempo em que tudo o que eu mais desejava era ser vista.
Não admirada.
Não compreendida por completo.
Apenas vista.
Queria que alguém olhasse para mim e percebesse, sem que eu precisasse dizer uma única palavra, o vazio que fazia morada dentro de mim. Eu queria ter coragem para falar, mas o silêncio parecia menos assustador do que a possibilidade de colocar a verdade em voz alta. Era mais fácil imaginar alguém decifrando os meus olhos do que admitir, para outra pessoa e para mim mesma, tudo o que eu sentia.
Então eu lia.
Porque, quando a minha mente se tornava um lugar perigoso demais para permanecer, os livros me ofereciam abrigo.
Eles eram, para mim, o que foram para Juliette Ferrars:
“Na ausência de relacionamentos humanos, formei laços com personagens. Vivi amor e perda por meio de histórias gravadas na história.”
E, por muito tempo, eu também fui feita de palavras.
“Sou um ser composto de letras, um personagem criado por meio de frases, uma imaginação formada por ficção.”
Enquanto o mundo parecia incapaz de me alcançar, a literatura encontrava um caminho.
Entre páginas amareladas, capítulos intermináveis e personagens que nunca existiram, encontrei pessoas que pareciam conhecer a minha alma. Pessoas que também haviam caminhado pelo abismo e, ainda assim, sobreviveram para contar a história.
Dizem que ficção é apenas entretenimento.
Para mim, foi sobrevivência.
Foram os livros que me ensinaram que a dor não era eterna. Que existia uma possibilidade, ainda que pequena, de um amanhã diferente. Que eu também podia acreditar na ideia de um futuro.
Não um futuro perfeito.
Apenas um futuro.
Mas existe uma diferença entre encontrar conforto em uma história e encontrar a si mesma dentro dela.
No fim do ano passado, enquanto atravessava uma das fases mais difíceis da minha vida, comecei a ler Taming 7.
E aconteceu algo que nunca tinha acontecido antes.
A cada capítulo, eu deixava de sentir que estava lendo alguém.
Era como olhar para um espelho.
Enquanto eu implorava, em silêncio, para que alguém me enxergasse, aquele livro me viu por inteira.
Sem perguntas.
Sem julgamentos.
Sem que eu precisasse explicar.
Os meus maiores demônios estão escondidos entre aquelas páginas.
Se algum dia alguém quiser realmente saber quem eu sou, talvez não precise me perguntar. Talvez baste ler aquele livro.
Assim como Gibsie, também carrego um segredo que pesa mais do que deveria. Um segredo que corrói por dentro.
Escrevi a minha verdade naquele exemplar.
A verdade que nunca consegui dizer em voz alta.
Hoje, ele permanece na minha estante.
Fechado.
Silencioso.
Esperando que, um dia, alguém o abra.
E, ao encontrar aquelas palavras, consiga finalmente me encontrar também.
Talvez seja isso o que torna a literatura tão bonita.
Ela nos oferece aquilo que, às vezes, o mundo esquece de dar.
Pertencimento.
Ela sussurra que não somos os únicos.
Que alguém, em algum lugar, sobreviveu à mesma tempestade.
Que o abismo tem ecos.
E que existe uma beleza imensa em descobrir que alguém escreveu, anos antes do nosso nascimento, exatamente aquilo que nunca conseguimos dizer.
Porque, às vezes, antes de sermos vistos por qualquer pessoa, somos vistos por um livro.
E, para quem passou tanto tempo invisível, isso pode ser o começo de tudo.
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Autor:
Magnolia Parks (
Offline) - Publicado: 24 de julho de 2026 22:25
- Categoria: Reflexão
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