Saint-Denis, 1332

António Carmo

Noite soturna, ventos vilões 

Em Saint-Denis, 1332

O céu, pincelado de um cinzento envergonhado 

Alberga inúmeros serões 

 

Dá-se então que numa casa pequena

Se reúnem os mercadores da cidade

Grande alvoroço, bocas vociferantes

Mas uma lá se destacou das restantes:

 

"Meus caros, vamos lá compreender

Eu sou pobre, ele é pobre, nós somos pobres...

Que havemos nós de fazer?

 

Não quero um castelo, digno de rei

Sonho distante, não o tentarei

Só quero dinheiro, p’ra comer e beber

O necessário 

P’ró meu filho viver"

 

"Peguemos num barco, e assaltemos Inglaterra,

O povo além do mar" 

Berrou Pierre Tricherra, que nunca gostou de trabalhar

 

 

Costa inglesa, sonho medieval

Frades imundos, o bem e o mal

Mulheres trajadas, conforme o normal 

Fora da lei sem escrúpulos, uma selva total

 

E então, foi não sem algum prazer 

Que os homens franceses 

Roubaram ingleses

Até mais nada haver

 

 

Noite assustada, ventos chorões 

Em Saint-Denis, 1332

O céu, inundado de um preto escuro

Dá lugar a inúmeros serões 

 

Na grande mansão de Pierre Tricherra

Come-se à grande e “à francesa”

Uma voz assume-se,

Levantando-se sobre o resto da mesa:

 

"Meus caros, vamos lá compreender 

Eu sou rico, ele é rico, nós somos ricos

Isto sim é viver!"

  • Autor: António Carmo (Offline Offline)
  • Publicado: 23 de julho de 2026 11:40
  • Categoria: Não classificado
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