State of Survival

Amanda S. Moraes

Quando o mundo aprendeu a trancar as portas,
eu não soube onde guardar o medo.

As ruas ficaram imóveis,
os dias perderam o contorno,
e a mesma notícia atravessava as paredes
como um pássaro ferido,
batendo as asas dentro da casa.

Lá fora, as pessoas se separavam ainda mais.
Disputavam verdades como quem disputa território,
erguiam fronteiras dentro das próprias palavras,
e alguns homens,

alimentavam o caos com as mãos sujas.

Então me escondi.

Não atrás de uma porta,
mas dentro de um outro mundo.

Um lugar feito de vozes incompreensíveis,
línguas que eu não dominava,
orações ditas em diferentes direções,
todos tentando sobreviver à mesma ausência de chão.

Ali, por um instante,
a realidade parecia menos afiada.

Eu podia atravessar o mundo sem sair da sala,
Sonhar futuros enquanto o relógio repetia
a mesma hora em todos os dias.

Mas até os mundos paralelos têm labirintos.

Uma raposa perdida no bosque.

Inquieta, curiosa,
com olhos de quem conhecia atalhos invisíveis.
Ela caminhava ao meu lado
como se tivesse me esperado por muito tempo,
como se soubesse exatamente
onde eu havia deixado pedaços de mim.

Eu a segui.

Às vezes nos perdíamos juntas.
Às vezes nos encontrávamos.
E às vezes o encontro era apenas outra forma de perda.

Mesmo em estado de sobrevivência aquilo me salvou, mas também me condenou. 

E enquanto eu aprendia a respirar naquela realidade inventada,
não percebi o instante exato
em que comecei a me perder de mim mesma.

Então compreendi: não fui apenas eu que me perdi naquele bosque.

Todos se perderam.

Todos deixaram um pouco de si entre as árvores, como quem abandona um casaco na pressa de sobreviver.

Alguns deixaram a esperança. Outros, a ingenuidade.

Muitos deixaram nomes, abraços, futuros, e a coragem de acreditar que o mundo aprenderia alguma coisa.

E talvez seja por isso que ainda caminhamos com tanta pressa: tentando alcançar a parte de nós que ficou para trás quando aprendemos, tarde demais, que sobreviver não é o mesmo que viver.

 

 

  • Autor: Amanda S. Moraes (Offline Offline)
  • Publicado: 21 de julho de 2026 05:44
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 1


Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.