depois da volta

Willie Stchaikovski

durante algumas semanas eu fui o lugar onde tudo podia cair.

as palavras chegavam primeiro.

depois vinham as exigências.

depois mais palavras.

eu ficava ali, tentando entender qual parte de mim precisava desaparecer para que as coisas ficassem tranquilas.

havia sempre alguma coisa acontecendo.

alguma coisa que precisava ser resolvida.

alguma coisa que precisava ser feita.

alguma coisa que não podia esperar.

eu fazia.

eu respondia.

eu tentava.

em algum momento comecei a acreditar que talvez o amor fosse isso.

ficar disponível o suficiente para que alguém percebesse que você estava ali.

eu estava ali.

estava em todos os lugares onde precisava estar.

o problema é que ninguém me perguntou onde eu estava.

junho passou por cima de mim.

o começo de julho veio logo atrás.

eu guardei coisas demais.

havia palavras que eu não conseguia terminar.

conversas em que eu esperava uma brecha para dizer que também estava doendo.

a brecha nunca apareceu.

então eu fui acumulando.

é uma coisa curiosa, a raiva.

ela cresce em silêncio.

fica pequena o bastante para caber no bolso.

você sai de casa com ela.

vai trabalhar com ela.

dorme com ela.

acorda e ela ainda está lá.

depois de um tempo, você já não sabe se está com raiva da pessoa ou de todos os dias em que permitiu que ela continuasse.

na sexta-feira eu terminei.

não foi bonito.

não teve delicadeza.

havia coisas demais dentro de mim e eu não encontrei uma maneira educada de colocá-las para fora.

depois você me pediu para ficar.

no domingo nós conversamos.

eu disse coisas horríveis.

algumas delas ainda estão no ar.

eu consigo lembrar de cada uma.

não retiro nenhuma.

você ainda quis tentar.

eu ainda estava com raiva.

isso deveria ter sido suficiente para me fazer ir embora.

você falou em começar de novo.

do zero.

eu aceitei.

a palavra saiu da minha boca antes que eu pudesse perguntar o que exatamente estava sendo reiniciado.

naquela noite eu me arrependi.

não do fim.

da volta.

é uma coisa estranha continuar em algum lugar depois de ter decidido sair.

a pessoa ainda está ali.

a conversa continua.

o telefone continua recebendo mensagens.

alguma coisa tenta se comportar como se o mundo tivesse voltado ao lugar.

mas eu sei que alguma coisa morreu.

não sei quando.

não sei exatamente o quê.

talvez tenha sido a mulher que eu amava.

talvez tenha sido a parte de mim que ainda conseguia olhar para ela sem procurar a ferida.

talvez tenha sido a ideia de que bastava amar alguém o bastante para que essa pessoa não conseguisse destruir você.

eu não consigo voltar para onde estava.

e não sei como seguir de onde estou.

então fico aqui.

com você.

com a raiva.

com o amor.

com tudo que foi dito.

com tudo que ainda não foi dito.

tentando começar de novo com as mãos sujas do fim.

e o pior é que eu ainda amo você.

isso é o que torna tudo tão nojento.

porque eu não estou segurando uma relação viva.

estou segurando um corpo.

e alguma coisa dentro de mim continua apertando o pescoço dele.

  • Autor: Willie Stchaikovski (Offline Offline)
  • Publicado: 20 de julho de 2026 15:59
  • Comentário do autor sobre o poema: Algo que todo mundo viveu e que muita gente ainda viverá, mas que sempre dói do mesmo jeito.
  • Categoria: Triste
  • Visualizações: 1


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