Enquanto Houver Céu
— Você ainda vai me esperar?
— Vou. Mesmo que os calendários envelheçam, mesmo que os cabelos embranqueçam antes da hora, mesmo que o mundo me convença de que esperar é desperdício de vida.
— E por quanto tempo?
— Pelo tempo que meu coração demorar para entender o que a minha boca nunca conseguiu aceitar: que algumas despedidas não voltam atrás.
— E se esse tempo nunca chegar?
— Então viverei carregando você como quem carrega uma cicatriz. Ela deixa de doer... mas nunca deixa de existir.
— E se eu encontrar outro amor?
— Espero que encontre. Porque eu conheci a mulher que eu queria ver feliz, não a mulher que eu queria ver presa.
Mas mentiria se dissesse que não sentiria o peito implodir ao imaginar outro homem decorando o mapa do teu corpo que um dia eu chamei de lar.
— Você conseguiria me esquecer?
— Não. Esquecer é um dom que Deus nunca me deu. Eu lembro até do cheiro da chuva em dias que nunca mais voltaram.
Como eu esqueceria a única pessoa que fez meu coração parar de se sentir estrangeiro?
— Então por que me deixou ir?
— Porque amar também é saber quando as próprias mãos machucam aquilo que acariciam.
Eu estava quebrado... e quem abraça com os braços cheios de cacos sempre acaba ferindo quem só queria descanso.
— Você se arrepende?
— Todos os dias.
Há manhãs em que o café tem gosto de culpa.
Há noites em que durmo abraçado ao espaço vazio da cama, como se a ausência pudesse, por um milagre, voltar a respirar.
— Você ainda conversa comigo na sua cabeça?
— O tempo inteiro.
Conto como foi meu dia. Imagino tua risada. Invento respostas para perguntas que você nunca mais fará.
Às vezes até peço desculpas... e, por alguns segundos, juro que consigo ouvir você dizendo:
"Tá tudo bem."
Mas não está.
Nunca esteve.
— Você acredita que um dia vamos nos reencontrar?
— Eu preciso acreditar.
Porque existem amores que são grandes demais para caberem numa única vida.
Talvez Deus guarde alguns abraços para depois do fim.
— E se esse reencontro nunca existir?
— Então eu aceito.
Mas aceito chorando.
Porque o amor verdadeiro não exige recompensa.
Ele apenas permanece.
Mesmo sem endereço. Mesmo sem resposta. Mesmo sem volta.
— Então essa é sua despedida?
— Não.
É a minha promessa.
Se um dia o destino cansar de brincar conosco... se algum acaso fizer nossos caminhos se cruzarem outra vez...
não vou perguntar onde você esteve.
Não vou cobrar os anos perdidos.
Só quero sentar ao seu lado, como naquela noite em que as estrelas caíam devagar...
e dizer baixinho
Você demorou...
E, se você sorrir...
vou entender que algumas pessoas não voltam porque esqueceram.
Voltam...
porque, assim como eu, nunca conseguiram ir embora.
Por Freddie Seixas
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Autor:
Freddie Seixas (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 20 de julho de 2026 04:36
- Categoria: Amor
- Visualizações: 6

Offline)
Comentários3
Bela composição, muito bom de ler!
Uma excelente semana, Freddie
Obrigado meu amigo! Ótima semana pra nós!
Poeta Freddie, a promessa da espera e a cicatriz, é necessário desapegar de algo que não é mais seu, ou saber ter o dom da paciência e da empatia de ver o outro lado sem julgar.
É uma declaração sobre a nobreza de amar alguém a ponto de deixá-la ir para não machucá-la, aceitando carregar a saudade e a lembrança como parte inseparável de quem se é. Uma verdadeira ode ao amor incondicional e atemporal!
Obrigado pelo comentário poetiza, sinto falta de nossas resenhas literárias, Deus abençoe!
O que eleva este texto é a grandeza do desapego altruísta ("Eu conheci a mulher que eu queria ver feliz, não a mulher que eu queria ver presa") em contraponto com a impossibilidade absoluta do esquecimento. O autor captura com perfeição a essência do amor maduro: aquele que reconhece os próprios limites ("quem abraça com os braços cheios de cacos sempre acaba ferindo"), mas que se recusa a morrer, transformando-se em promessa, em cicatriz e em fé.
Um fecho magistral para um texto que ecoa na alma muito tempo depois da última linha, provando que a ausência, quando habitada por um sentimento verdadeiro, torna-se uma forma dolorosa, porém inevitável, de companhia.
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