De trás e pra frente

Evela Magno

 

Amor é que nem o vento: não se vê, mas vira o tempo do avesso. Eu carecia de te amar a cada hora, em todo o tempo de Deus. Mas o entendimento me veio, como  espinho: você desamou de mim, desandou do meu rumo.

Só que o que foi forte, bem-vivido no peito, não aceita  esquecimento. O amor que te dei foi de uma lindeza tão brava, tão inteira, que não passa, não desbota; ficou grudado na minha alma feito carrapicho. Eu já gastei prosa e verso tentando verter esse sentimento em folha de papel. Mire veja: será que um afeto desse tamanho algum dia some, ou só se esconde no capim alto do tempo?

Hoje, no correr do dia, houve um outrem que me tocou. Tocou-me os pés. Éramos ela e eu, num sossego bom, um agrado que o corpo aceita. Mas o humano é misterioso: achei no gesto dela uma solidão perdida, ou quem sabe era só a decência da gentileza pura. O certo é que o topo do mundo  me fez lembrar a vastidão do meu vazio. Esse oco que trago no peito, e que a todo segundo teima em querer a tua presença para completar.

O que a alma pedia — ah, o desejar da gente é coisa que não se mede — era só o cheiro do teu corpo mais uma vez. Beijar tua boca e bem no ouvidinho sussurrar  meu amor-vasto.

Mas o real não é o que a gente quer, o real se impõe. Eu não tenho como tirar de mim o que fomos, e nem deixo esse passado passar em vão. Mas careço de fechar essa porta. Viver é muito perigoso, e o coração exige travessia. Fique com o meu amor bem-querido, que foi grande demais para ser pequeno.

O mundo é grande e o sertão é dentro da gente. Deus te guie. Adeus.

 

 

  • Autor: Evela Magno (Offline Offline)
  • Publicado: 15 de julho de 2026 00:19
  • Categoria: Amor
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