Esta noite o sono abandonou a minha casa
e deixou em seu lugar um animal antigo.
Ele caminhou devagar pelo meu peito,
farejou os nomes das pessoas que amo
e fez deles uma constelação de ausências possíveis.
Descobri que o futuro
é uma árvore capaz de lançar sombras
antes mesmo de nascer.
Corri delas.
Mas há um instante
em que os pés compreendem
aquilo que a cabeça insiste em negar:
ninguém atravessa a própria noite
correndo da escuridão.
Toda sombra conhece o nome
da luz que a desenhou.
Respirei como quem emerge de um mar
que nunca chegou a existir,
e, ainda assim,
meus pulmões traziam sal.
Há medos que não desejam nossa morte.
Desejam apenas que deixemos de fugir.
Passei anos acreditando
que sobreviver era manter os olhos
fixos no horizonte,
esperando a próxima tempestade.
Agora suspeito
que a tempestade também se cansa
de quem a espera.
Se o alarme tocar,
que toque.
Se a guerra vier,
que venha.
Não atravessarei a fronteira
como quem foge da água.
Atravessarei
como o rio que descobriu
que o mar nunca foi seu inimigo.
Porque existe uma parte de mim
que nasceu antes do medo
e continuará existindo
quando ele se calar.
Talvez seja isso
o que chamamos de coragem.
Não a ausência do abismo,
mas a estranha decisão
de levar uma semente no bolso
mesmo sabendo
que toda floresta começa
enterrada na escuridão.
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Autor:
Kauane de Moraes (
Offline) - Publicado: 14 de julho de 2026 01:49
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 4

Offline)
Comentários2
Ficou excelente o ritmo, parabéns pela bela composição.
Amei!!!
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