Por Juliana Hoffmann Liska
Paris vestia-se de prata.
A noite respirava lentamente sobre o rio Sena, e a lua parecia derramar antigas memórias entre as pontes de pedra. Havia um frio delicado no ar, desses que não machucam a pele, apenas despertam aquilo que o coração passou anos tentando esquecer.
Marcella caminhava sozinha.
Não porque lhe faltasse companhia, mas porque algumas almas nasceram para conversar apenas com o silêncio.
Seus passos eram suaves, quase invisíveis, como se não desejasse interromper o descanso da cidade. Carregava nos olhos um universo inteiro de despedidas, mas havia uma serenidade em seu rosto que apenas aqueles que sobreviveram às grandes tempestades conseguem possuir.
A lua a reconheceu.
Talvez porque também soubesse o que é iluminar sem jamais tocar.
Talvez porque ambas conhecessem o destino das coisas belas: existir para clarear a escuridão dos outros, enquanto escondem as próprias sombras.
Marcella fechou os olhos.
Sentiu que dentro do peito existia uma velha biblioteca onde cada lembrança era um livro coberto de poeira. Alguns falavam de amores que chegaram tarde demais. Outros guardavam cartas nunca enviadas. Havia páginas molhadas por lágrimas antigas, flores secas entre capítulos esquecidos e promessas que o tempo levou sem pedir licença.
Ainda assim...
Nenhum daqueles livros falava de derrota.
Falavam apenas de quem teve coragem de continuar amando.
Porque há pessoas que envelhecem.
E há almas que apenas se tornam mais profundas.
Marcella pertencia às segundas.
Ela descobrira que a verdadeira beleza não mora no espelho, mas na delicadeza de quem continua oferecendo ternura depois de conhecer a ausência.
O vento trouxe o perfume das roseiras escondidas em um velho jardim parisiense.
Ela sorriu.
Não um sorriso para o mundo.
Mas aquele sorriso silencioso que nasce quando finalmente fazemos as pazes com quem fomos.
A lua desceu um pouco mais sobre a cidade.
Envolveu Marcella como um manto branco.
Naquele instante, compreendeu que nenhuma alma sensível caminha realmente sozinha. Cada lágrima derramada transforma-se em estrela. Cada saudade torna-se constelação. Cada amor verdadeiro permanece vivo em algum lugar onde o tempo não alcança.
Paris adormeceu.
As luzes refletiam sobre o rio como milhares de pequenas esperanças.
Marcella continuou caminhando.
Não buscava alguém.
Buscava apenas permanecer fiel à luz que carregava dentro de si.
Porque existem pessoas que iluminam uma sala.
E existem almas feitas de luar.
Essas iluminam séculos.
Sem pedir reconhecimento.
Sem fazer ruído.
Apenas existindo.
E talvez Deus tenha criado a lua para lembrar aos corações mais sensíveis que até a noite mais escura pode ser bela quando alguém decide transformá-la em poesia.
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Autor:
Jullyne and Jully (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 11 de julho de 2026 21:00
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 1
- Em coleções: POESIAS D\'Mundo.

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