Disseram que era uma bênção.
Mas ninguém me contou sobre o peso.
Ninguém me contou que ser escolhida era como ouvir um chamado que não silencia, nem quando eu tento ignorar, nem quando me afundo no barulho do mundo só pra esquecer.
Começou como um sussurro.
No meio de uma risada que já não preenchia, no meio de conversas vazias, no meio de um pecado que antes parecia tão… normal.
“Isso não é mais pra você.”
E foi aí que tudo começou a escurecer dentro de mim.
O mundo não mudou. As pessoas continuam as mesmas. Riem das mesmas coisas, se entregam às mesmas vontades, vivem sem esse peso no peito.
Mas eu…
eu não consigo mais.
É como se uma luz tivesse sido acesa à força dentro de mim, e agora tudo que antes parecia normal está exposto, cru, feio, impossível de ignorar.
Ser escolhida não trouxe paz.
Trouxe consciência.
E eu perdi o direito de fingir.
As tentações não foram embora. Elas cresceram. Ficaram mais bonitas, mais próximas, mais insistentes. É como se uma voz sempre me chamasse:
“Só mais uma vez… ninguém precisa saber.”
Mas agora eu sei.
E isso é o que mais dói.
Antes, o erro acabava no momento. Agora ele fica. Ele pesa. Ele volta. Ele se repete na minha mente como um eco que não me deixa em paz.
Meu coração virou um campo de batalha.
Carne contra espírito.
Vontade contra obediência.
E o silêncio de Deus…
Esse ninguém me explicou.
Orar e sentir que minhas palavras não passam do teto. Chorar e não receber resposta. Me perguntar, no meio da madrugada, se isso tudo é real… ou se eu só estou me perdendo.
Mas mesmo assim…
eu não consigo desistir.
E isso me assusta.
Porque se fosse só dor, eu fugiria. Se fosse só culpa, eu ignoraria. Se fosse só dúvida, eu escolheria não acreditar.
Mas não é.
É como estar presa a uma verdade que eu não consigo mais negar.
Como se, uma vez escolhida, não existisse volta.
Só caminhos difíceis… e inevitáveis.
E então eu entendo.
Ser escolhida não é ser especial.
É ser separada.
Arrancada, pouco a pouco, de tudo que um dia foi confortável.
É morrer em partes.
É sentir saudade de quem eu era… mesmo sabendo que eu não posso mais voltar.
E hoje, olhando pro teto, com o peito apertado e a mente cansada de lutar, eu sussurro:
“Se isso é ser Tua… então fica comigo. Porque sozinha eu não consigo suportar.”
E pela primeira vez…
o silêncio não parece vazio.
Parece presença.
Pesada. Invisível. Inevitável.
Mas… presença.
-
Autor:
legendary lady (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 6 de julho de 2026 17:22
- Categoria: Espiritual
- Visualizações: 1
- Em coleções: Sobre mim.

Offline)
Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.