Sob a Lua de Corvina

julianahoffmannliska

Por Juliana Hoffmann Liska

August caminhava entre as sombras,
onde o tempo não deixava pegadas
e os séculos eram apenas ecos.

Era um espírito.

Livre da carne,
mas prisioneiro de um único sentimento.

Todas as noites erguia os olhos
para o trono prateado da Lua.

Lá estava Corvina.

A deusa do luar,
guardadora das marés,
das estrelas esquecidas
e dos sonhos que os homens não conseguiam recordar ao despertar.

Ela conhecia o nome de cada alma.

Mas apenas uma fazia seu coração celestial vacilar.

August.

Quando a noite florescia,
Corvina derramava luz sobre os vales.

Não era para iluminar o mundo.

Era para que ele encontrasse o caminho até ela.

Entre constelações antigas,
os dois conversavam sem palavras.

Ela respondia com o brilho da Lua.

Ele respondia com o vento que acariciava as montanhas.

— Se eu fosse mortal — dizia Corvina —,
viveria uma única vida ao teu lado.

— E se eu pudesse voltar à Terra — respondia August —,
pediria ao destino apenas um amanhecer contigo.

Mas os deuses não pertencem aos homens.

E os espíritos não pertencem ao céu.

Por isso, amavam-se no único lugar onde nenhuma lei podia alcançá-los:

o silêncio.

Quando um cometa riscava a escuridão,
Corvina fechava os olhos e fazia um desejo.

Que o universo esquecesse, por um instante,
quem era deusa
e quem era espírito.

Dizem que, nas noites em que a Lua parece envolta por um halo de prata,
Corvina está sorrindo para August.

E quando uma estrela cadente atravessa o céu sem aviso,
é o amor dos dois escrevendo, por um breve instante,
um verso luminoso sobre a eternidade.

Porque há amores que não vivem na Terra.

Vivem onde a noite encontra a Lua,
e onde uma alma continua esperando, século após século,
o mesmo olhar que transformou a eternidade em poesia.



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