São duas da manhã, me estico até a janela tão alta pra ver o baixo de cima, o chão que não toco que me sustenta.
A rua é assim: vazia, poluída pela luz dos postes que ainda que fortes, não tiram a escuridão do escuro das noites.
Digo assim por que o escuro em escuridão é algo além do breu.
Eu descobri por que essa sensação das ruas a noite me emociona tanto: eis que me sinto um vasto campo de passagem no meio da melancólica solidão. Ou será então, eu uma viajante no vasto campo escuro? Ainda não me decidi, quem sabe sou as duas coisas.
Mas claro, as luzes coloridas dessa cidade também me importam.
Me comovem numa sensação de futura liberdade, onde tudo é possível, mas que independente do que a rua escura me traga, meu coração estará sereno em seu estado mais puro. Os estímulos da vida noturna serão os mais bem aproveitados possíveis e nada abalaria minha alma.
Aliás, adoro essa palavra: "comove". Diz que algo é capaz de mover meu ser a outro estado. Comover pra mim é além de se emocionar. É o sentimento me movendo para um novo estado, pensamento, um processo quase divino de se pensar.
A vida é comoção a todo instante, a cada susto, a cada promessa, a cada realização, a cada perda.
Por algum motivo quando está de noite – e apenas de noite, olho pra fora e sinto, ou sei, que eu estou a andar por aí, algo que sei até mesmo se estivesse de olhos fechados. Pois soa como uma intuição ou um sussurro ao pé do meu ouvido.
Eu tenho escrito diferente ultimamente, algo que me parece mais como uma conversa para o além, e não mais um vômito de colagens mentais incompletas.
Às vezes me questiono o que me fez ter essa forma tristonha. Se é algo sobre karma, algo já previamente planejado no meu destino, ou algo que eu mesma me dei sem perceber, talvez ao me deixar sentir tudo, ao me deixar racionalizar tudo, talvez então, a praga da revelação reflexiva.
No fim não me importa tanto assim, consigo ser feliz nos momentos que foram feitos para serem felizes. Os quais chamo carinhosamente de; migalhas, moedas beneficiárias ou chicletes de troca para a minha alma.
Benditas sejam as migalhas para a alma. Passo fome, pela farta Vida que oferece apenas migalhas pra minha alma tão faminta.
Quando triste, já não peço mais esmolas para a Vida, espero-te que de bom grado me dê-as.
Afinal, já passo fome desde o nascimento, pois existência foi feita a partir da falta, e é da fome que me alimento.
E aqui lhe digo com toda minha fraca força: Oh, grande fome de vida que tenho! Divina seja essa minha felicidade medíocre pelo pouco que tenho da tão vasta e bela Vida.
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Autor:
Sol (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 3 de julho de 2026 19:37
- Comentário do autor sobre o poema: Com certeza uma das escritas mais importantes pra mim e para a minha trajetória com as palavras.
- Categoria: Não classificado
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Offline)
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