O nome dele era Freddie.
Mas faz tanto tempo que ninguém o chamava pelo nome, que ele passou a responder pelo silêncio.
Todos os dias acordava cedo, vestia um sorriso emprestado, engolia o café junto com o medo e saía para salvar pessoas.
Curava inseguranças, levantava quem havia desistido, dizia que o corpo era mais forte do que a mente...
...enquanto a própria mente o mantinha preso numa cela sem grades, sem portas, sem direito à liberdade.
Era um cárcere invisível.
Os outros chamavam de ansiedade.
Ele chamava de casa.
Existiam dias em que o coração acelerava tanto que parecia querer fugir pela garganta.
As mãos tremiam.
O estômago se revoltava.
O ar desaparecia do mundo.
E Freddie tinha certeza de que aquela seria sua última manhã.
Então vinha o desespero.
O suor frio.
As lágrimas escondidas no banheiro.
Os joelhos fracos.
A vergonha de parecer fraco, quando todos acreditavam que ele era forte o suficiente para carregar o peso do mundo.
Ninguém imaginava que o homem que salvava vidas voltava para casa sem conseguir salvar a própria.
Porque há médicos que morrem da doença.
Há psicólogos que conversam com monstros todas as madrugadas.
E há heróis...
...que sangram por baixo da armadura.
Freddie era um deles.
Às vezes olhava para o espelho e perguntava:
— Quem vai cuidar de quem cuida de todo mundo?
Mas o espelho nunca respondeu.
Espelhos apenas devolvem o rosto.
Nunca a paz.
Então ele respirava.
Uma vez.
Duas.
Dez.
Cem.
Até convencer o próprio coração de que ainda não era a hora de partir.
Naquela tarde, ele chorou.
Surtou.
Tremeu.
Vomitou de nervoso.
Sentiu a morte sentar ao seu lado como uma velha conhecida.
Mas ela foi embora de mãos vazias.
Freddie permaneceu ali.
Exausto.
Quebrado.
Ainda respirando.
No dia seguinte, ninguém percebeu.
Ele voltou ao trabalho.
Sorriu.
Abraçou pessoas.
Disse que tudo ficaria bem.
E, pela ironia mais cruel da vida, as pessoas acreditaram.
Porque alguns homens aprendem a esconder o inferno atrás de um sorriso impecável.
Naquela noite, antes de dormir, ele escreveu apenas uma frase num pedaço de papel amassado:
"Hoje sobrevivi de novo."
Depois apagou a luz.
Não porque a dor tivesse acabado.
Mas porque descobriu que coragem nunca foi ausência de medo.
Coragem é levantar todas as manhãs mesmo quando a própria mente passou a noite inteira tentando organizar o seu funeral.
E, enquanto o sol nascia outra vez, Freddie sorriu sozinho e sussurrou para ninguém:
— Cancelem o funeral... o Hospital do Sofredor ainda não conseguiu me levart.
Por Freddie Seixas
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Autor:
Freddie Seixas (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 3 de julho de 2026 17:14
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 3

Offline)
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