Escravo do tempo

RGGouveia

Acordei. Celular na mão. Primeira visualização. Estava lá, iluminado, brilho máximo: o relógio.
Não tinha pressa, não iria trabalhar hoje; atestado do neurologista. Levantei, toalete da manhã. Cozinha. Café pronto, acordaram antes de mim. Resolvi esquentar um pouco de leite. Estava lá, brilhando também: o relógio do micro-ondas. Não dei bola, como disse, eu não tinha hora. Café com leite, pão na chapa. Me sentei. Prestei atenção aos ruídos da manhã. Entre carros, passarinhos, cachorro latindo, o tique-taque do relógio em cima do balcão. Na parede, mais um relógio girando, gritando por atenção. De repente, tomei uns goles mais rápido. Lembrei, me acalmei, pensei: sem pressa, estou de folga.
Terminei o café, o pão. Vez dos remédios. Não achei na gaveta de sempre. Ah, comprei ontem à noite, deixei no carro. Peguei a chave, abri a porta; estava lá a sacola da farmácia. Me inclinei. Estava lá novamente, o relógio do carro, dizendo: "Você está atrasado!"
Esqueci, dei razão. Saí acelerado para o banho. Chuveiro ligado, xampu, sabonete, toalha, pente, escova de dente. Cheguei no quarto. Na cabeceira da cama, o relógio digital ria de mim: "Você está pronto, mas não precisa ir; você está de atestado. Hoje você não está atrasado. Hoje não é meu escravo. Deixe para segunda."

  • Autor: RGGouveia (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 3 de julho de 2026 08:52
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 3


Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.