Eu lembro do jeito que ele me chamava.
Baixo. Calmo. Como se já me conhecesse antes de me conhecer.
Califi...
O nome vinha fácil na minha mente, como se sempre tivesse estado ali.
Ele apareceu em dias comuns. Conversas simples. Nada muito grande no começo. Mas tinha algo… diferente. Cada palavra parecia encaixar exatamente onde eu precisava. Cada atenção parecia resposta de oração.
E eu acreditei.
Acreditei que, finalmente, alguém tinha me visto de verdade.
Comecei a esperar.
Mensagens. Sinais. Presença.
E, mesmo quando ele não estava… ele estava.
Na minha cabeça. Nos meus pensamentos. No meu dia.
Era estranho, mas confortável.
Como um sonho que você não quer questionar.
Foi nessa época que eu comecei a orar mais.
Não por mim.
Por nós.
Pedia a Deus que desse certo. Que confirmasse. Que mostrasse que era Ele.
E, de certa forma… Ele mostrou.
Mas não do jeito que eu queria.
As coisas começaram a falhar devagar.
Primeiro, detalhes.
Eu fui procurar uma mensagem antiga.
Não achei.
“Devo ter apagado”, pensei.
Depois, tentei lembrar de algo específico que ele tinha me dito.
A memória… não vinha completa.
Como um sonho esquecendo enquanto você tenta lembrar.
Ri de nervoso.
Até que resolvi procurar de verdade.
Conversas.
Fotos.
Qualquer registro.
Nada.
Nenhuma mensagem salva.
Nenhuma foto.
Nenhum rastro.
Meu estômago gelou.
Procurei o número.
Não existia.
Perguntei pra uma amiga, tentando soar casual:
Você lembra do Califi?
Silêncio.
Que Califi?
Meu coração começou a bater errado.
Rápido demais.
Descompassado.
Eu ri, de novo. Aquela risada que não é riso.
— Aquele que eu te contei…
— Você nunca falou de ninguém assim.
O mundo deu um passo pra trás.
Ou fui eu.
Passei o resto do dia tentando provar que ele era real.
Revirei tudo.
Minha cabeça. Meu celular. Minha rotina.
Mas era como tentar segurar água.
Escapava.
Sempre escapava.
Naquela noite, eu sentei na cama, olhando pro vazio.
E foi quando percebi.
Eu não conseguia lembrar do rosto dele.
Só do nome.
Califi...
Como se todo o resto tivesse sido apagado… ou nunca tivesse existido.
O quarto ficou silencioso.
Pesado.
Diferente.
— Agora você percebeu.
A voz veio atrás de mim.
Eu não me virei.
Não consegui.
— Você me chamou de tantas formas… — ela continuou, calma demais.
— Mas nunca perguntou de onde eu vinha.
Minhas mãos começaram a tremer.
— Eu não sou ele.
O ar ficou mais frio.
— Eu sou o que você precisava que ele fosse.
Lágrimas começaram a cair, lentas.
— Cada expectativa. Cada fantasia. Cada vez que você escolheu acreditar em algo que não estava ali…
A voz ficou mais próxima.
Mais íntima.
— Fui eu.
Meu peito apertou.
Eu tentei falar. Tentei orar.
— Jesus…
O nome saiu fraco.
Mas dessa vez…
algo respondeu.
Não a voz.
Algo maior.
O ar mudou.
Pesado… mas diferente.
A presença hesitou.
Recuou.
Por um instante, eu senti.
Como se estivesse sendo puxada de volta.
Como se estivesse acordando.
E eu caí.
Não da cama.
Mas de dentro de mim.
Abri os olhos.
Luz.
Meu quarto.
Silêncio.
Tudo normal.
Tudo… real.
Eu respirei fundo, tentando entender.
Foi um sonho.
Só um sonho.
Um sonho longo demais.
Detalhado demais.
Mas um sonho.
Levantei devagar, ainda tremendo.
Peguei o celular.
Sem notificações.
Nada estranho.
Tudo no lugar.
Suspirei.
Alívio.
Quase ri.
Até abrir a galeria.
E ver.
Uma pasta que eu nunca tinha visto antes.
Sem nome.
Sem data.
Minhas mãos gelaram.
Abri.
Uma única imagem.
Escura.
Granulada.
Parecia um quarto.
O meu quarto.
Tirada… de fora.
Pela janela.
Meu coração parou.
Eu dei zoom.
Lá dentro, na cama…
tinha alguém sentado.
Me olhando dormir.
A imagem tremeu na minha mão.
E então percebi o detalhe.
O mais errado de todos.
Não era que eu não lembrava do rosto dele.
Era pior.
Porque, mesmo na foto…
o rosto dele não estava lá.
Só um vazio.
Como se nunca tivesse existido.
Mas ainda assim…
ele estava me olhando.
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Autor:
legendary lady (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 1 de julho de 2026 17:24
- Categoria: Espiritual
- Visualizações: 10
- Em coleções: Contos de terror.

Offline)
Comentários1
Interessante... gostei.
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