As Estações do Vazio

Junior Silva

 

Há dias em que o vazio nos encontra.

Não bate à porta,
não anuncia a chegada,
não pede licença.
Apenas entra,
como quem conhece o caminho
até o cômodo mais silencioso da alma.

Vem disfarçado.

Às vezes,
traz o rosto da tristeza.
Noutras,
veste o manto da melancolia,
carrega nos ombros o remorso
e ergue o orgulho
como quem acredita ser eterno.

Chega de mansinho,
quase sem fazer ruído,
mas cresce por dentro
como um vulcão aprendendo,
em silêncio,
o idioma da erupção.

E, quando percebemos,
o peito já é lava,
os pensamentos já são cinzas,
e o coração acredita
que o inverno jamais terminará.

Mas termina.

Porque nenhuma noite
foi capaz de aprisionar o amanhecer.
Nenhum inverno
convenceu a primavera
a esquecer o caminho das flores.

O vazio também conhece a despedida.

Aprendi isso
em um encontro improvável,
desses que chegam sem aviso
e partem sem promessas.

Entre palavras despretensiosas,
uma frase encontrou morada em mim
e mudou a direção dos meus dias:

"Vivemos todos os dias.
Morremos apenas uma vez."

Desde então,
os relógios deixaram de medir apenas o tempo
e passaram a revelar possibilidades.

Compreendi
que viver
não é esperar por um único grande momento,
mas aceitar
os pequenos renascimentos
que cabem dentro de um dia.

Morre o medo.
Nasce a coragem.

Morre a culpa.
Nasce o perdão.

Morre o que pesa.
Floresce o que permanece.

A solidão ainda me visita.

Hoje, porém,
eu a vejo
como vejo as estações.

Ela chega.

Permanece o tempo necessário.

Depois parte.

E, quando vai,
leva consigo
as folhas secas
que eu insistia em guardar.

Então o peito,
antes um jardim abandonado,
descobre que ainda sabe florescer.

Porque até o vazio
guarda em si
a promessa de um jardim.

E é justamente ali,
onde pensei
que nada sobreviveria,
que a vida,
paciente como a primavera,
faz do silêncio
o primeiro verso
de um novo amanhecer.

  • Autor: Jr.Silva (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 30 de junho de 2026 20:08
  • Comentário do autor sobre o poema: Este poema nasceu de um encontro improvável, mas fala de algo que pertence a todos nós: os vazios que, vez ou outra, visitam a alma. É um lembrete de que até as estações mais frias passam e que sempre existe espaço para um novo florescer.
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 2


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