Há dias em que o vazio nos encontra.
Não bate à porta,
não anuncia a chegada,
não pede licença.
Apenas entra,
como quem conhece o caminho
até o cômodo mais silencioso da alma.
Vem disfarçado.
Às vezes,
traz o rosto da tristeza.
Noutras,
veste o manto da melancolia,
carrega nos ombros o remorso
e ergue o orgulho
como quem acredita ser eterno.
Chega de mansinho,
quase sem fazer ruído,
mas cresce por dentro
como um vulcão aprendendo,
em silêncio,
o idioma da erupção.
E, quando percebemos,
o peito já é lava,
os pensamentos já são cinzas,
e o coração acredita
que o inverno jamais terminará.
Mas termina.
Porque nenhuma noite
foi capaz de aprisionar o amanhecer.
Nenhum inverno
convenceu a primavera
a esquecer o caminho das flores.
O vazio também conhece a despedida.
Aprendi isso
em um encontro improvável,
desses que chegam sem aviso
e partem sem promessas.
Entre palavras despretensiosas,
uma frase encontrou morada em mim
e mudou a direção dos meus dias:
"Vivemos todos os dias.
Morremos apenas uma vez."
Desde então,
os relógios deixaram de medir apenas o tempo
e passaram a revelar possibilidades.
Compreendi
que viver
não é esperar por um único grande momento,
mas aceitar
os pequenos renascimentos
que cabem dentro de um dia.
Morre o medo.
Nasce a coragem.
Morre a culpa.
Nasce o perdão.
Morre o que pesa.
Floresce o que permanece.
A solidão ainda me visita.
Hoje, porém,
eu a vejo
como vejo as estações.
Ela chega.
Permanece o tempo necessário.
Depois parte.
E, quando vai,
leva consigo
as folhas secas
que eu insistia em guardar.
Então o peito,
antes um jardim abandonado,
descobre que ainda sabe florescer.
Porque até o vazio
guarda em si
a promessa de um jardim.
E é justamente ali,
onde pensei
que nada sobreviveria,
que a vida,
paciente como a primavera,
faz do silêncio
o primeiro verso
de um novo amanhecer.
-
Autor:
Jr.Silva (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 30 de junho de 2026 20:08
- Comentário do autor sobre o poema: Este poema nasceu de um encontro improvável, mas fala de algo que pertence a todos nós: os vazios que, vez ou outra, visitam a alma. É um lembrete de que até as estações mais frias passam e que sempre existe espaço para um novo florescer.
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 2

Offline)
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