DIAS QUE FICARAM

Lucien Vieira

(Lucien Vieira)

 

Hoje vos convido a caminharmos juntos por minhas memórias de infância: nostálgicas historinhas retratadas, entre outras formas, nos gibis — que impregnam a memória afetiva não somente pela narração, pelos personagens, pelas cores ou desenhos em si, mas também pelo olfato. Foi daí que se iniciou a formatação de meus escritos, os quais, paulatinamente transformaram-se em minhas próprias histórias.

 

Li e reli, por exemplo, o Super-Homem, meu gibi favorito. Jamais esqueci a kryptonita que o deixava fragilizado e era usada com frequência por seus oponentes no intuito de derrotá-lo. Vi e revi inúmeras vezes Dom Diego de La Vega transformar-se em Zorro pelas válvulas da televisão Colorado RQ de móvel, sempre auxiliado pelo seu fiel amigo Bernardo — que fingia ser mudo —, ainda em imagem preto e branco. O hilário Sargento Garcia, que o perseguia, jamais conseguia capturá-lo.

 

Senti o trepidar garupal da Monark nos passeios dominicais rumo à missa, com meu pai, enquanto eu vestia short e camisa brancos e sapatos com meias quase ao joelho. A velha Monareta dobrável, que foi carinhosamente recuperada pelo meu pai nas noites após o trabalho, traz boas lembranças. O manuseio do pulverizador manual — específico para borrifar inseticida contra mosquitos e usado artesanalmente como ferramenta de pintura para revesti-la de vermelho — permanece como um filme em minha memória.

 

Degustei generosas copadas de garapa de açúcar, consolação dos meus costumeiros alaridos birrentos, prazerosamente preparadas pela querida Teresa. O fumegar do fogão a lenha, durante o processo de cocção do munguzá, do baião de dois e do cuscuz — entre outros sabores da cozinha local, preparados carinhosamente por minha mãe, chegava até mim enquanto eu degustava no pratinho branco de ágata.

 

Neste meio tempo — entre gibis, televisão, bicicleta, garapas e mungunzá — havia outras tantas meninices:  pega-pega, esconde-esconde, futebol no monturo, triângulo, bila, pião, soltar raia, atirar de baladeira, nadar e pescar nos rios infestados de mandis e sanguessugas... São “flashes” das muitas brincadeiras simples da época, que inundavam de alegria os dias da minha infância. Dias que ficaram... Memoráveis.

 

Entre salas de aula, carteiras duplas com guarda-livros e lousas de cimento — próprias para o uso de giz de gesso que se desfazia no ar —, lembro-me de muitos professores. Entre eles, a senhora Nair, minha mestra. Religiosa, paciente, carismática... Falava baixinho, em cadência pausada e explicativa, como se compreendesse perfeitamente as nossas dificuldades de aprendizagem. O meu mais profundo e respeitoso agradecimento.

 

Foi neste contexto de riquezas memoriais que cresci e adquiri os mais elementares fundamentos que sustentam a minha formação. Inquieta-me, portanto, perceber a mudança abrupta entre o que vivi e o que tenho observado. Sempre me pergunto: que memórias terão as crianças de hoje? De maneira muito honesta, temo que um dia elas já não disponham da mesma oportunidade de rememorar a infância com a mesma riqueza afetiva. Qual será, portanto, o porvir desse mundo cada vez mais inteligente e, paradoxalmente, talvez menos memorável?

 

  • Autor: Lucien Vieira (Offline Offline)
  • Publicado: 30 de junho de 2026 09:34
  • Comentário do autor sobre o poema: Prosa memorialística (prosa poética autobiográfica). ... é um relato memorialístico em que o autor revisita a infância a partir de lembranças afetivas marcadas por experiências sensoriais e culturais; uma valorização da infância vivida como um período rico em experiências concretas e afetivas.
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 4
Comentários +

Comentários1

  • Francisco Queiroz

    Que belas lembranças, tenho algumas similares, e a criança ainda mora aí no seu peito?

    Abraço

    Boa semana



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