A praça

Aline Ap. Marcondes

Caminhando na praça ainda pela manhã, mas, tarde demais para tomar ar fresco, observava cada detalhe com muita cautela, como se fosse a primeira vez. Lembrou-se da querida mãe, que há anos passara por ali, o quanto gostava de flores e que havia comprado uma dúzia de rosas, somente para ela.

Enquanto aguardava, percebia a paisagem calma, tranquila e as moradas que ali haviam, algumas precárias, outras luxuosas, quase abandonadas ou mesmo enfeitadas. Refletindo qual delas melhor lhe caberia. Todas preservadas em um silêncio absoluto, quase perturbador.

Apreciou até, tal quietude, pois, lembrou-se da antiga rotina, dos prazos apertados e a agenda cheia, agora tudo parecia tão abstrato, tinha tempo que a mente não silenciava assim, pensou. Os bem quistos pelos quais esperava chegaram, o tempo estava fechado, a chuva caía fina, fria e melancólica, mas, aqueles cujos poucos ainda lhe estimavam, estavam lá.

Teve então a honra de cumprimentar a todos, olhou atentamente os 7 rostos, um por um, observando cada traço, como se fosse a primeira vez. Neste momento, percebeu um gosto amargo na boca, o peito apertou como nunca antes, devido ao tamanho desespero, pensava sobre a saudade, qual seria o valor do tempo?. 

A mente voltou a ficar agitada e a tranquilidade há pouco apreciada, já não lhe cabia. Lembrou-se de toda uma vida, pois, cada um que ali estava, representava um elo, desses que parecem cordões umbilicais invisíveis e que não querem ser cortados.

Neste momento, as lágrimas já lhe cobriam a face, agora se parecia com alguns dos presentes, envolvidos em tamanho sentimento. Percebeu que à sua volta estavam aqueles que o queriam bem e comovidos por tamanha emoção, resolveram acompanhá-lo até a praça. 

Porém, haviam também aqueles que pouco o conheciam, talvez, porque não sentiam o elo amoroso, mas sim, uma estranha e profunda sensação de dívida. A chuva já tinha passado, mas o tempo continuava fechado em neblina e no meio dessa fumaça densa, turva, percebeu assustado, que um outro alguém o observava atentamente. 

A praça voltou à quietude habitual. Aproximou-se então o desconhecido cujo o qual, não se podia ver o rosto, somente quando levantou o velho chapéu para cumprimentá-lo. Revelando um par de olhos gélidos, totalmente diferente de tudo que já tinha visto. 

A expressão do ser era séria, misteriosa, combinava com o cenário sombrio. Revelando  um misto de autoridade e compreensão, como se também já tivesse passado por tudo aquilo, sendo capaz de perceber a dor, o sofrimento, a negação e o amor. Neste momento, o olhar frio, até morto daquele estranho, foi o único a transmitir-lhe paz. 

O tempo começava a clarear, ainda não havia sol, mas, o quase breu de antes já não existia. Bem como, as expectativas, a ansiedade, o desespero, a agenda cheia.., agora, apenas um rosto pálido, sem vida. Demorou-se um pouco mais a observar aquela, cuja qual achava tão bela quanto seu último suspiro, desejou beijá-la uma única vez, mas, era chegado o momento do retorno. Então despediu-se dos elos em sublime pensamento e envolto em luz, partiu.

Aline

  • Autor: Aline Ap. Marcondes (Offline Offline)
  • Publicado: 25 de junho de 2026 22:02
  • Comentário do autor sobre o poema: Olá, espero que gostem!
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 2


Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.