O Eterno Retorno

Francisco Queiroz

Cansado, quase não tenho palavras,

ainda sobrou um pouco de coragem

para escrever um pequeno desabafo.

 

Sinto o gosto variado da vida.

Tento me apegar ao que há de bom

mas logo me escapa.

 

O amargo virar doce

e o doce virar amargo.

Tudo que se tenta livrar,

permanece mais um pouco.

 

Esta manhã mesmo

tomei um gole de um livro,

falava de um tal de Sísifo,

me identifiquei.

 

Não sei ele,

mas na minha descida

eu aprecio a vista.

 

Enquanto me alimento

do que a pedra

ladeira abaixo derrubou:

ora mangas,

ora limões.

 

E no final da descida

apreciando ou não

só nos resta é subida.

  • Autor: Francisco Queiroz (Pseudónimo (Online Online)
  • Publicado: 24 de junho de 2026 22:37
  • Comentário do autor sobre o poema: Sigo pensando na vida e no cotidiano, correspondo-me comigo mesmo através da poesia. A vida é ganha com um trabalho, à primeira vista, mecânico. Apesar de as duas mãos estarem ocupadas rolando a pedra morro acima, a audição, a visão e o olfato continuam a tatear a vida, rotineiramente irrepetível. Na descida, as mãos estão livres. Então, mesmo exausto, sobra-me alma para escrever poesias. Não há heroísmo, apenas apreciações e desabafos, o doce e o amargo, a dualidade.
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 16
  • Usuários favoritos deste poema: Apegaua
  • Em coleções: Naruteza, Silêncios.
Comentários +

Comentários2

  • Apegaua

    Amigo, se você na flor da mocidade já reclama de cansaço, diz que come livro e com as mãos suja de graxa, só tem tempo para descer a ladeira.
    Eu já fiz tudo isso e mais um pedaço e por não reclamar, quando pedi minha aposentadoria, o patrão não querendo me perder, colocou um sinal.
    Marcado para sempre que for preciso me encontrar.
    Só que agora os carros são elétricos e eu tenho medo de choque.
    Abraços.
    Apegaua

    • Francisco Queiroz

      Tempos modernos e suas modernices, sei lá, tô no meio do caminho e sinto saudades de uma visão do futuro que era medida a passos lentos, tá tudo tão imediato.

      Penso que tenho mais do mereço, sou grato!

      Abraços fraterno em vocês...

    • Ayalah Verônica Berg

      Adorei teu poema! Começa com Nietzsche e termina com Camus... amei. Fui até cavocar um de meus poemas antigos e postei agora; usei o mesmo recurso teu: "Espelho de Prata", onde mostrei um pouco a influência da poesia maldita de Baudelaire ou Rimbaud nas minhas ideias, mas com uma crueza mais ao estilo Verônica Berg... hehe. Beijão poético!

      • Francisco Queiroz

        Obrigado pela leitura atenciosa, eu gosto de bagunçar as coisas, aí depois junta tudo e vê no que dá, já tô curioso sobre teu poema, agorinha mesmo vou ler...

        Abraço fraterno, Ayalah



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