O Miserável
Ele risca os próprios dias na parede da memória.
Carrega lápides no coração,
mas quem pesa são as memórias.
Aprendeu a engolir o grito
pra não acordar ninguém.
Esculpe o próprio epitáfio na própria alma:
"Morreu de tanto lembrar".
Vela o próprio corpo acordado toda noite.
Respira culpa como se fosse oxigênio.
Acorda afogado no próprio coração
engasgado com tudo que nunca cuspiu.
Condenado à prisão perpétua
por crimes que nunca ousou cometer.
Reza Ave-Marias pra defuntos
que ele mesmo enterrou no coração.
Costura a boca dos mortos
com linha tirada do próprio pulso.
Miserável é quem vela o próprio cadáver
acordado e abraça a dor.
Miserável é quem afoga a alma
no próprio sangue e conta os segundos.
Miserável é quem arranca os próprios olhos
pra não ver o próprio reflexo.
No fim, nem a tristeza fica.
Só o costume dela.
E ele sorri.
Porque até o desespero
enjoa de insistir.
— Pedro Henrique
-
Autor:
PedroVersos (
Offline) - Publicado: 24 de junho de 2026 03:32
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 4

Offline)
Comentários1
Batata!
Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.