A Corvina de 1789

julianahoffmannliska

por Juliana Hoffmann Liska

Na margem fria do grande rio,
quando o inverno vestia a terra de cinza,
um pescador lançou sua rede
sob um céu carregado de bruma.

Era o ano de 1789.

Os ventos do sul vinham lentos,
arrastando histórias de fronteiras,
enquanto os corvos desenhavam círculos
sobre as águas escuras da madrugada.

Então surgiu ela.

Uma corvina prateada,
brilhando entre as gotas da chuva,
como se carregasse em suas escamas
a memória secreta do tempo.

O homem a tomou nas mãos,
mas hesitou.

Havia algo antigo em seus olhos,
algo que parecia conhecer
as dores dos navegantes,
as preces dos esquecidos
e os sonhos dos que jamais voltaram.

Ao longe, uma vela tremulava
na janela de uma velha estância.
A chama dançava contra o vento,
como quem tentava proteger
a última lembrança do mundo.

A chuva caiu mais forte.

O rio tornou-se espelho de sombras.
Os corvos silenciaram.
E por um instante,
a corvina pareceu transformar-se
em prata líquida e luar.

O pescador então a devolveu às águas.

Ela desapareceu devagar,
levando consigo segredos
que pertenciam apenas ao rio,
à noite
e aos séculos.

Desde então,
quando as nuvens cobrem o céu
e o vento percorre as coxilhas gaúchas,
há quem diga ver um brilho distante
cortando as águas escuras.

Talvez seja apenas um peixe.

Talvez seja a velha corvina de 1789,
ainda nadando entre as memórias
que o tempo não conseguiu afogar.



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