Você me entregou o fim
embrulhado em palavras bonitas,
como quem acende velas
para disfarçar um naufrágio.
Falou de diferenças.
Como se rios deixassem de encontrar o mar
por discutirem a direção do vento.
Como se o amor fosse uma casa
erguida apenas nos dias de sol.
Eu li tudo.
Cada frase desfilava elegante,
feito outono explicando às folhas
por que elas precisavam cair.
Mas as árvores nunca acreditam.
Por isso respondi:
ok.
Duas letras.
Um ponto final vestido de monossílabo.
Porque existem despedidas
que chegam tão decididas
que qualquer resposta
seria apenas o eco conversando com a montanha.
Você disse que era melhor partir
antes que nos machucássemos mais.
E eu achei bonito.
A chuva sempre diz
que está salvando o céu do peso das nuvens
quando, na verdade,
está apenas indo embora.
Talvez seja isso.
Talvez o amor tenha virado pássaro em você.
Em mim,
continuou ninho.
Mas ninguém culpa as asas
por desejarem distância.
Nem o ninho
por continuar esperando primavera.
Então eu disse "ok".
Não porque doeu pouco.
Disse "ok"
como o oceano recebe um navio que desaparece no horizonte:
sem correr atrás,
sem impedir a partida,
mas sabendo exatamente
o tamanho da ausência que ficará.
Porque aprendi uma coisa estranha sobre o amor:
Quem ama, às vezes, vai.
Mas quem quer permanecer,
fica.
E entre ficar e partir,
há uma verdade silenciosa
que nenhuma carta consegue esconder.
O amor não morre no adeus.
Morre muito antes,
na primeira vez em que alguém escolhe a porta
enquanto o outro ainda acende a luz.
Por isso meu "ok"
não foi conformismo.
Foi um espelho.
Pequeno,
frio,
e terrivelmente sincero.
Porque algumas histórias
não terminam quando alguém vai embora.
Terminam quando alguém descobre
que estava segurando sozinho
as duas extremidades da mesma ponte.
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Autor:
Jr.Silva (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 17 de junho de 2026 08:57
- Comentário do autor sobre o poema: Este poema nasceu de uma resposta simples: um "ok". Mas nem sempre as palavras mais curtas carregam os menores sentimentos. Às vezes, são apenas a parte visível de um oceano que permanece submerso. O "ok" deste poema não representa indiferença, orgulho ou resignação. Representa lucidez. É o instante em que alguém compreende que insistir seria transformar amor em convencimento. E amor não se convence. Amor escolhe. Talvez seja por isso que a palavra mais triste deste poema seja também a menor: porque algumas despedidas cabem em duas letras, mas deixam ausências que nenhuma palavra consegue medir.
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 3

Offline)
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