Como não fui capaz de perceber?
Você é um idiota mesmo, não é?
Não sei como aconteceu,
mas você existiu nele.
Engraçado.
Vivemos sob o mesmo céu,
pisamos a mesma terra,
respiramos o mesmo ar,
e ainda assim
nunca fomos a mesma existência.
Você me enganou.
Usou minha boca
para dizer quem eu era,
como tantos antes de você.
E o que eu era?
Um eco.
Como todos nós.
Uma resposta
nascida antes da pergunta.
Um rosto carregando um nome
que jamais escolheu.
E o que você sente agora?
Mal.
Perdido.
Como alguém que descobre
que passou a vida inteira
seguindo as próprias pegadas.
A cada volta,
uma ferida.
A cada ferida,
a esperança de que a próxima curva
finalmente seja diferente.
Mas nunca é.
Você não merece esse nome.
Você nem merece
a existência de si.
Meu nome?
Não.
O meu nome.
Embora,
pensando melhor,
nenhum dos dois
possa chamá-lo de seu.
E talvez ninguém devesse.
Concordamos nisso.
Esse fardo não nos pertence.
Esse nome nos foi entregue
antes do primeiro choro,
antes da primeira memória,
antes mesmo de sabermos existir.
Antes do ventre.
Antes da queda.
Antes da miséria.
Não é nosso.
É da carne.
Da carne que nos veste.
Da carne que envelhece.
Da carne que apodrece lentamente
enquanto insiste
em chamar isso de vida.
E ainda assim...
é nela que habitamos.
Como prisioneiras.
Como filhas.
Como atrizes
de uma tragédia
que fingimos escrever.
Como é engraçado
que saibas disso
e ele não.
Sim.
Talvez o maior engano
não tenha sido você existir em mim.
Ou viver nele,
como todos nós vivemos.
Ou morrer nele,
como todos nós morremos.
Talvez o maior engano
tenha sido acreditar
que éramos a mesma coisa.
Mas este nome
nunca foi nosso.
Foi da carne.
E a carne,
podre desde o princípio,
continua a sustentar-nos.
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Autor:
Thomas Vasconcellos Ivanov (
Offline) - Publicado: 16 de junho de 2026 15:11
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 8
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