Entreguei as chaves sem exigir correntes.
Abri as portas sem pedir prisão.
Disse:
"Pode mandar."
E você sorriu.
Disse:
"Pode me domar."
E você acariciou o vento.
Autorizei seus comandos,
ofereci meus silêncios,
deixei espaço para suas regras,
para seus caprichos,
para suas palavras sobre as minhas.
E o que você fez?
Nada.
Um homem recebe um reino
e passa o dia olhando os muros.
Recebe a bússola
e não escolhe caminho.
Recebe o poder
e não exerce presença.
Eu, pronta para obedecer,
e você...
obedecendo à própria indecisão.
Chega a ser engraçado.
Porque a parte difícil eu fiz:
confiei.
A parte difícil era minha.
A sua era apenas conduzir.
Mas há uma ironia nisso tudo.
Você mesmo me contou
o quão raro é encontrar certas portas abertas,
certas entregas sem barganha,
certas confianças sem contratos.
Tão raro que muitos passam a vida
procurando vestígios delas
em pessoas que nunca as oferecerão.
E quando a raridade finalmente bate à porta,
você a convida para entrar...
e a deixa esperando na sala.
Às vezes me pergunto
se você percebe o que recebeu nas mãos.
Não porque eu seja extraordinária.
Mas porque algumas coisas,
quando aparecem,
não costumam aparecer duas vezes.
Então fico aqui,
entre a paciência e o riso,
observando.
Eu já entreguei as rédeas.
A pergunta não é se eu confio em você.
A pergunta é:
Você confia o suficiente em si mesmo para pegá-las?
Ou vai continuar admirando a oportunidade
como quem contempla uma fogueira à distância,
sem nunca se aproximar do calor?
Porque, dito de forma simples:
Que desperdício de autorização.
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Autor:
legendary lady (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 15 de junho de 2026 11:04
- Categoria: Conto
- Visualizações: 4
- Em coleções: Sobre nós.

Offline)
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