Gênero - Autobiografia II: Nossa Senhora das Graças 

Gino, Sinvaldo de Souza

Autobiografia II: Nossa Senhora das Graças 

 

     Eu era muito pequeno, ainda não andava. Estava fraco, doente, deitado na cama sem força nem pra falar direito. Foi naquela cama que eu a vi pela primeira vez.

     Uma senhora apareceu na parte dos pés da cama, escorada na parede. Os pés dela não tocavam o colchão. Vestia uma túnica branca e por cima um manto azul claro que cobria os cabelos. Ela falava comigo, mas a boca não se mexia. Pedia pra eu descer da cama. Eu balançava a cabeça que não conseguia. Ela insistiu: “Você consegue”. 

     Aos poucos fui descendo, arrastando o corpo e segurando no lençol. Quando os pés tocaram o chão, fui me apoiando na parede até chegar ao fogão de lenha. Estava com muita sede. Fui até o pote de água que ficava sobre um banco largo. Não tinha água e meu braço não alcançava o fundo.

     Minha mãe estava na sala costurando e rezando o terço mariano. Quando ouviu o barulho no pote, estranhou. “Não tem ninguém ali”, pensou, e foi ver. Me encontrou tentando pegar água.  
“Meu filho, você andando? Quer água, vou pegar!”  
     Eu respondi: “Foi a mulher que pediu pra eu sair da cama”.  
Minha mãe olhou pra mim e disse: “Foi Nossa Senhora”.

     Anos depois aconteceu de novo. A mesma senhora, no mesmo lugar, com o mesmo pedido. Eu consegui levantar e andar. Depois disso, nunca mais tive essa experiência.

      Já adulto e casado, fui a Trindade. Andando pelas barracas, vi muitas imagens. Parei numa que me gelou por dentro. Era idêntica à mulher que apareceu pra mim duas vezes. Perguntei pro rapaz da banca:  
“Como se chama essa imagem?”  
Ele respondeu: “Nossa Senhora das Graças”.  
Comprei na hora. Desde então sou devoto dela.

     Um dia voltei a Matrinchã e chamei meu cunhado pra ir comigo até a casa onde tudo aconteceu. Contei a história no caminho. A família é amiga da nossa há muito tempo. Conversei com a proprietária e pedi pra entrar no quarto da filha dela, a Valdelice. Ela deixou sem nenhuma objeção. 

     O quarto é pequeno. Entrei e fiquei parado olhando. Depois de tantos anos, o lugar era o mesmo. E eu, que tinha entrado ali sem conseguir andar, agora estava de pé, contando como uma mulher de manto azul me fez levantar.

 

Autor, Gino, Sinvaldo de Souza 

  • Autor: GINO (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 15 de junho de 2026 06:22
  • Categoria: Ocasião especial
  • Visualizações: 2


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