Anomalias métricas de um limiar sem espessura ,de existências que aninharam-se junto à expansão do universo, cuja a própria dilatação do continuum temporal, não recordara mais deles !

santidarko

 
 
...Às vezes eu me sinto assim: apenas um desprezível e ínfimo ruído entre as estações da matéria!
...Uma equação incompleta nas arquiteturas,  de uma outrora discrepância, que nutri-se da desatenção do universo para seguir  existindo!
 
 
-Santidarko 
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Introdução: Um horror Cósmico 
 
 
A primeira coisa que os iniciados nas ciências do continuum aprendiam -- e que os prudentes jamais esqueciam -- era que o universo não se expande de modo uniforme. 
 
 
...Há rugas!
Há cicatrizes!
 
 
Há intervalos onde a própria noção de existência hesita, como um ponteiro a tremer entre dois segundos. 
A física oficial chamava-lhes anomalias métricas. 
 
Os antigos, com um vocabulário mais próximo do terror, chamavam-lhes de fendas.
 
Durante milênios, essas fendas foram ignoradas. Não por serem invisíveis, mas por serem demasiado próximas. 
Estavam no lapso entre o piscar e a pálpebra, na costura onde a palavra se descola do pensamento, no espaço ínfimo que separa a sombra do seu dono. Eram interstícios tão familiares,  que ninguém os via -- como o ponto cego no centro do campo visual, que o cérebro preenche sem pedir licença.
 
 
O problema, como se veio a descobrir tarde demais, é que os interstícios não estavam vazios!
 
 
Algo os ocupava. Algo que não pertencia à matéria, nem à energia, nem a nenhuma das categorias que a nossa física sabia nomear. Entidades feitas não de carne, nem de luz, nem de escuridão, 
...mas daquilo que resta quando se retiram essas três coisas. 
 
 
Seres que se alimentavam da quase inexistência, do desvio ontológico entre o que uma coisa é e o que uma coisa parece ser.
 
 
Chamaram-lhes:os Inominados Prístinos 
 
...Não porque entravam e saíam, mas porque eram o entre. O limiar sem espessura!
A charneira sem metal. 
O vão!
 
E durante toda a nossa história, tinham estado ali. Não a observar-nos --- isso seria conceder-lhes um interesse que nunca tiveram —, mas a habitar-nos como se habita uma casa que não se sabe ter construído. Aninhavam-se nos nossos silêncios, nos nossos lapsos de memória, na hesitação antes do beijo, na demora entre a pergunta e a resposta. E, sobretudo, no instante em que a consciência se recolhe e deixa atrás de si um breve vácuo ---o rasto negativo de um pensamento que esteve quase a ser.
 
 
Foi precisamente num desses vácuos que tudo começou.
 
Ou melhor: foi quando o vácuo começou a olhar de volta.
 
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Anomalias métricas de um limiar sem espessura ,de existências que aninharam-se junto à expansão do universo, cuja a própria dilatação do continuum temporal, não recordara mais deles !
 
 
 
 
...Havia fendas que não eram fendas. 
Eram antes pontos de fuga na própria textura do continuum, por onde escorria uma espécie de fuligem temporal — resíduo de futuros que jamais se concretizariam. Chamavam-lhe Cinza de Cronos, nos tratados que os cosmólogos hereges redigiam às escondidas.
 
 
A topografia daquele lugar não obedecia à geometria, mas à memória. 
O chão lembrava-se de ter sido muralha, e a muralha esquecia-se de ter sido abismo. Torres de basalto negro cresciam para dentro, invertidas, como se o zénite fosse um poço e o nadir uma cúpula. 
 
 
O vento não soprava: lembrava. E naquilo que se poderia chamar horizonte, se houvesse linha, um sol púrpuro ardia sem consumir-se, emitindo uma luz que chegava antes de partir.
 
 
Os construtos que percorriam essa região moviam-se por contrição. Eram feixes compactados de intenção, envoltos em cascas cerâmicas que mudavam de forma conforme a função esquecida...que ainda cumpriam. Alguns tinham rodas que eram também dedos, que eram também sílabas de um idioma pronunciado apenas por engrenagens. Deixavam atrás de si um rasto que não era pegada: era o oposto de uma ausência.
 
 
E nas pregas desse mundo --- não nas pregas do espaço, mas nas pregas daquilo que o espaço recorda -- alojavam-se as Exegeses. Eram entidades parasitárias do sentido. 
...Não vinham de fora, mas do excesso de dentro, do ponto onde uma dimensão se dobra sobre si mesma e gera uma bolsa de vácuo semântico.
 
 
Habitavam a diferença entre o acontecimento e a sua interpretação. Ocupavam o hiato ínfimo entre a frase dita e a frase ouvida, entre o sinal emitido pela estrela morta e o seu registo no telescópio. Nutriam-se do desvio, da imprecisão, do erro de arredondamento que o universo comete ao calcular-se a si próprio.
 
 
Eram invisíveis não por serem transparentes, mas por serem estritamente literais. 
Não se escondiam atrás das coisas; escondiam-se no verbo 'ser' que liga o sujeito ao predicado. Quando se moviam, era como uma errata a deslizar pela página da realidade, corrigindo o que nunca estivera errado.
 
 
Cresciam nesse ínterim. Tecendo arquiteturas de pura discrepância, catedrais de ruído entre as estações da matéria, onde celebravam liturgias feitas de equações incompletas e salmos recitados em frequências que anulavam a fé. 
...E tudo o que delas se podia pressentir era um perfume metálico, como o de uma verdade que apodrece antes de ser revelada.
 
 
 
 
 
  • Autor: santidarko (Offline Offline)
  • Publicado: 15 de junho de 2026 02:24
  • Categoria: Não classificado
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