Gênero: Autobiografia - História de um Milagre (Relato de minha mãe)
Eu nasci em Matrinchã, que na época ainda era distrito de Aruanã. Logo nos primeiros dias de vida fui pego por uma doença que ninguém conseguia nomear. A febre não cedia. Eu tinha crises constantes. Melhorava um pouco, recebia alta, e dias depois voltava pior.
Na mesma rua, outras duas crianças próximas estavam com os mesmos sintomas. Nenhum médico de Goiás Velho sabia dizer o que era. As duas não resistiram. Eu fui a único que escapou.
Num desses retornos, eu fiquei muito mal. Meus pais me levaram correndo para o hospital de Goiás. Lá eu tive uma crise epilética forte. O médico olhou o quadro e pediu para meus pais saírem da sala. Ele disse que tinha um remédio, mas que era arriscado. Do jeito que eu estava, era quase impossível aguentar a aplicação. Meus pais responderam: “Se for pra tentar, tenta. Melhor arriscar do que ficar sem fazer nada”.
Ele aplicou a injeção. Eu comecei a esticar o corpo, os sinais ficaram de morte. Minha mãe não aguentou ver e saiu correndo. O médico fechou a porta e me deixou sozinho no quarto.
Minha mãe entrou num banheiro, ajoelhou diante do vaso e falou com Deus e com Nossa Senhora de Aparecida: “Se o meu filho ressuscitar, eu faço um voto. No dia 12 de outubro eu farei uma reza na minha casa, com muita comida. E quando ele tiver idade, ele mesmo faz a reza e pagará todo gasto. O primeiro dinheiro que ele ganhar, eu guardo pra encerrar esse voto”.
Quando ela voltou ao quarto, eu estava com os olhos abertos. O médico me pegou no colo e viu que o lençou tinha grudado nas minhas costas. Era um sinal avermelhado, do suor que tinha saído. Voltei a vida.
O voto foi cumprido. Com 12 anos eu trabalhava abrindo as porteiras para o senhor Carlos, que era leiteiro na cidade. Ele pegava o leite nas fazendas e levava pro laticínio de Matrinchã. Meu trabalho era abrir o caminho. Quando o senhor Carlos me pagava, minha mãe guardava metade e me deixava com a outra. Ela fez uma pequena poupança com esse dinheiro.
No dia 12 de outubro, do mesmo ano, ela fechou o voto. Teve reza do terço, teve bolo, teve mesa farta. Só fiquei sabendo de toda a história depois que o voto terminou. Minha mãe me contou devagar, como quem conta um segredo guardado por muito tempo.
Hoje eu entendo que carrego uma vida emprestada. As outras duas crianças não voltaram. Eu voltei. E por isso, essa história não é só minha. É da minha mãe, da sua fé, e da promessa que ela cumpriu até o fim. Que Deus a tenha no Céu.
Autor: Gino, Sinvaldo de Souza
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Autor:
GINO (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 14 de junho de 2026 12:58
- Categoria: Ocasião especial
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