Sorriso que Aprendeu a se Esconder

Freddie Seixas

Quando eu era criança, meu sorriso chegava antes de mim.
Era largo, desajeitado, cheio daqueles dentes pequenos que pareciam não saber ocupar espaço.
Eu sorria por qualquer coisa. Pelo vento. Pela chuva. Por um cachorro na rua, como os animais me deixavam alegre...
Por existir.
Naquele tempo, eu não sabia que a alegria também podia incomodar.
Foi então que me ensinaram a olhar para a minha própria boca como quem olha um defeito.
Riram do meu sorriso até que eu aprendesse a rir menos.
Disseram nomes. Inventaram apelidos. Transformaram em vergonha aquilo que antes era só luz.
E eu fui fechando os lábios.
Devagar.
Como quem fecha uma janela para impedir que o frio entre.
O problema é que junto com o frio, a luz também ficou do lado de fora.
Hoje eu ainda sorrio.
Mas é diferente.
Existe um cuidado. Uma contenção. Uma sombra.
Meu sorriso aprendeu a pedir licença antes de existir.
Pouca gente percebe, mas algumas cicatrizes não ficam na pele.
Algumas moram no instante exato em que alguém segura a própria felicidade para não ser julgado.
Porque nem todo sorriso é apenas alegria.
Às vezes ele é coragem.
Às vezes é resistência.
Às vezes é uma criança ferida tentando acreditar novamente que pode mostrar quem é.
E talvez a maior tristeza não seja quando alguém nos faz chorar.
Talvez seja quando alguém nos convence a esconder justamente aquilo que nos fazia brilhar.
Ainda assim, em algum lugar dentro de mim, vive aquele menino.
O menino do sorriso fácil.
O menino que não conhecia espelhos cruéis, nem palavras afiadas.
E às vezes, quando esqueço de me proteger por um segundo, ele aparece.
E sorri.
Com todos os dentes.
Como se estivesse tentando me lembrar que a alegria nunca foi feia.
Feias eram as mãos que tentaram apagá-la.

 

Por Freddie Seixas 

  • Autor: Freddie Seixas (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 10 de junho de 2026 16:41
  • Comentário do autor sobre o poema: Nunca deixem de sorrir!
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 4


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