Crise dos 30 (ISSO NÃO É UM POEMA)

Ludmilla Fernandes

Sou uma pessoa ansiosa e abafada. Quando completo uma idade já falo que tenho a próxima, exemplo de quando completei 28 anos e comecei a falar que já tinha 29. Quando enfim cheguei lá nos 29 anos, parecia que o tempo estava correndo mais rápido do que eu conseguia acompanhar, e eu já sussurrava em completo desespero que logo estaria nos 30. Todos conhecemos essa tal "crise dos 30" como se fosse uma tempestade cheia de medo, das incertezas de tudo o que a gente acha que não vai dar conta de carregar e que isso vai destriuir nossas vidas e nossos planos.

Mas na verdade, crises existem em qualquer idade. Conheço pessoas que enfrentaram fortemente a crise dos 18, a dos 25 quando a responsabilidade olha na nossa cara e diz “cheguei para ficar”. Mas os 29 anos... ah, os meus 29 anos pareciam carregados de um peso diferente. Era como se eu estivesse descendo uma ladeira numa bicicleta sem freios, e o vento que batia contra meu rosto era tão forte que doía, mas ao mesmo tempo eu não conseguia parar. Parecia que quanto mais rápido eu ia, mais frio na barriga eu sentia, como se cada quilômetro percorrido fosse um lembrete de que o tempo não espera por ninguém, principalmente por mim que sempre penso que estou um passo atrás de todo mundo.

Dizem que pessoas normais inventam histórias bonitas. Eu não sou muito normal, então minha história não poderia ser bonita... mas a verdade é que nada do que eu disse ou disser é história inventada mas detalhes de uma realidade que eu vivi que não foi bonita não. Aos 27 anos, a vida me bateu com uma força tão grande que eu achei que nunca ia suportar. Foram dois anos que pareciam não ter fim: doenças sem diagnósticos, mudança física, dias de cama, de dores desmedidas, de diversas internações, de choros que saíam sem querer (outras vezes choros que saíam querendo), de joelhos no chão, pedindo força que eu não sabia se tinha. E ao mesmo tempo, uma dor que corta mais fundo do que qualquer doença: a incerteza da fé e a incerteza se eu realmente queria sobreviver àquilo tudo. Não conseguia ouvir a voz de Deus (ou me esforçava para não ver seu amor em cada detalhe, em cada lágrima e em cada situação.. não sei bem), mas eu sei que Ele esteve ao meu lado curando todas as minhas feridas internas e externa que só hoje consigo enxergar.

Nesse período eu fiz uma coisa que doeu ainda mais: eu me afastei de todos meus amigos. Não deixava ninguém entrar na minha casa e nem queria receber ninguém. Mas eu sentia falta, uma falta tão grande que apertava o peito, que não cabia no coração. Fiquei sozinha, com as minhas feridas e com as minhas decepções (algumas que eu causei, outras que a vida trouxe sem avisar). Mas Deus me segurava, mesmo sem eu ver nada além da escuridão. Ele estava lá. E eu vi bênçãos, tantas bênçãos, que eu não merecia, que eu não pedia, mas que Ele deu de graça, só por amor.

Então, depois de muito bater cabeça com medo do futuro eu me pergunto: por que eu teria medo dos 30 Se eu já passei por tempestades tão grandes, se eu já lutei tanto, se eu já carreguei tanto peso nos anos que vieram antes... por que teria medo de um número?

A gente cria tanta coisa na cabeça, né? Quando criança, ouve histórias, vê exemplos, e cria uma ideia perfeita do que é ter 30 anos. Acha que tem que ter casa própria, tem que estar casado, tem que ter filhos, tem que ter a carreira pronta, tem que ter tudo resolvido. E quando a gente chega lá, se não tem tudo isso, fica com vergonha. Vergonha de admitir que ainda não sabe o que quer, que escolheu caminhos que não eram os seus, que ainda está aprendendo a viver, que ainda está crescendo.

Mas para você que me lê agora, eu quero te dizer uma coisa: não é vergonha nenhuma. Nós nunca estamos prontos. Nós nunca chegamos ao fim. A vida não é uma linha reta que chega ao destino e acaba. É uma caminhada, cheia de curvas, de pedras, de dias bons e dias ruins. E não tem idade para estar perdido, não tem idade para não saber para onde vai. Perdido é todo mundo, só que uns sabem falar, outros guardam dentro do coração.

Aos 30 anos, eu não cheguei ao fim. Eu cheguei num lugar onde eu entendo que eu não preciso provar nada para ninguém. Não preciso mostrar que estou caminhando direito para que os outros aprovem. Não preciso ter tudo o que todo mundo tem, nem preciso conquistar tudo o que todo mundo diz que tem que ter. Não nasci para viver um mundo de comparações. Sou exclusivamente eu e meus passos pertencem a mim.

E hoje, chegando aos 30 conquistei algo que ninguém pode tirar de mim: a força de quem lutou antes do tempo. A força de quem caiu, se levantou, e continuou andando, caiu de novo, se reergueu... mesmo quando não tinha condições visíveis. Eu vivi de tudo um pouco: do choro e da alegria, da perda e da esperança, da solidão e do amor que chega de surpresa. E mesmo sem merecer eu fui muito amada. E nessa caminhada, eu mesma fui juntando os meus pedacinhos quebrados, e fui me reconstruindo, pedacinho por pedacinho, com muito amor e muita fé (depois de um tempo entendi que É TUDO POR ELE).

Hoje, eu já tenho maturidade para parar de correr atrás do que os outros esperam de mim. Já tenho coragem de fazer o que me faz bem, o que enche o meu coração. Eu entendi que sucesso não é número na conta, não é casa grande, não é a vida que os outros querem ver. Sucesso é o que você carrega no peito: é a paz que você tem, é a certeza de que você está sendo verdadeiro, é a força que você descobriu que tem dentro de si.

Não é sobre chegar ao lugar perfeito. É sobre aprender a se levantar e caminhar. É sobre aceitar que a vida é um aprendizado diário. E eu tenho certeza: o melhor ainda está por vir. O MELHOR DE DEUS AINDA ESTÁ POR VIR. Porque quem já lutou tanto, quem já passou por tanto, quem já se reconstruiu tantas vezes... merece tudo o que é bom, tudo o que é lindo, tudo o que Deus tem guardado para cada um de nós.

A crise não está nos 30 anos. A crise está em querer ser alguém que você não é, em querer ter uma vida que não é a sua. E quando a gente deixa isso para trás, quando a gente se aceita como é, com as suas marcas, com as suas histórias, com o seu caminho... aí sim, a vida começa a fazer sentido. E o coração fica leve, muito leve.

  • Autor: Ludmilla Fernandes (Offline Offline)
  • Publicado: 2 de junho de 2026 14:06
  • Comentário do autor sobre o poema: Faço 30 anos em breves dias e resolvi fazer um relato pessoal sobre esse tema tão falado. Não quero ser hipócrita: já me tirou o sono muitas vezes.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 5
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Comentários1

  • Shmuel

    Que bom a forma que você encontrou para enfrentar as tais crises.

    Abraços



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