Me chamaram de iludido…
como se eu tivesse amado sozinho por escolha,
como se eu tivesse inventado
o que eu vivi.
Mas ninguém tava naquele portão.
Onde eu te deixei
como quem protege um último pedaço de paz,
e levei comigo um beijo
que já vinha com gosto de despedida
sem eu saber.
Porque ali…
você já não era presença.
Era tela.
Era reflexo azul nos teus olhos,
digitando ausências
enquanto eu ainda te segurava no mundo real.
“É minha mãe”, você disse.
E eu —
bobo ou sincero demais —
preferi acreditar
do que encarar o começo do fim.
Naquela noite, te chamei.
E o silêncio…
ah, o silêncio é a forma mais cruel
de resposta.
Depois descobri:
você jogava, ria, existia —
só não comigo.
Eu fui ficando.
Como casa abandonada
que ainda espera alguém voltar
mesmo com as luzes apagadas.
No outro dia,
o mundo seguiu normal pra você.
Pra mim, não.
Eu te vi rindo no recreio,
falando de beijos
como quem troca de roupa,
como quem nunca vestiu sentimento.
Aquilo não foi ciúme.
Foi como ver
um quadro que você pintou com amor
sendo usado
como rascunho por outra pessoa.
Eu saí.
Porque ali eu já era sobra.
Mas ainda tinha mais.
Na saída,
você resumiu tudo em uma palavra:
“ficantes”.
Como se eu fosse passageiro
de uma viagem que eu achei que era destino.
E mesmo assim,
eu não quebrei.
Ainda.
Porque a queda de verdade
veio depois.
Horas mais tarde,
você voltou —
não como tempestade,
mas como lâmina.
Fria.
Precisa.
Direta.
Fotos.
Comparações.
Detalhes que ninguém esquece.
Você não falou —
você cravou.
Cada mensagem tua
foi um fósforo
num coração que ainda era inflamável.
E eu queimei.
Queimei tentando entender
como alguém que já foi abrigo
vira incêndio
sem nem olhar pra trás.
Você falava dele
como quem exibe um troféu,
enquanto eu…
eu era só o chão
onde você treinou cair sem se machucar.
E ali eu entendi:
não foi amor que acabou.
Foi o respeito
que nunca existiu inteiro.
Eu te bloqueei.
Não por raiva.
Mas porque ficar
era como respirar fumaça
achando que ainda era ar.
E mesmo assim…
mesmo com tudo em cinzas,
mesmo com o cheiro de queimado
ainda grudado na memória…
tem uma parte de mim
que lembra de você
antes do fogo.
Antes da tela.
Antes das mentiras.
Antes de você me ensinar
que nem todo “pra sempre”
sobrevive ao primeiro teste de verdade.
E talvez seja isso
que mais dói:
não foi você que eu perdi.
Foi quem eu achei
que você era.
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Autor:
Biscoitão (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 31 de maio de 2026 01:09
- Comentário do autor sobre o poema: Esse poema é mais do que palavras, é um desabafo.\r\nÉ sobre amar de verdade e, mesmo assim, ser tratado como opção.\r\nSobre confiar, insistir, e no final perceber que o respeito nunca foi recíproco.\r\nEscrevi isso não pra atacar ninguém, mas pra mostrar que nem sempre quem mais sente é quem erra.
- Categoria: Amor
- Visualizações: 1
- Em coleções: Rosa Mosqueta.

Offline)
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