Portão, Tela e Cinzas

Raphael Schmidt

Me chamaram de iludido…

como se eu tivesse amado sozinho por escolha,

como se eu tivesse inventado

o que eu vivi.

Mas ninguém tava naquele portão.

Onde eu te deixei

como quem protege um último pedaço de paz,

e levei comigo um beijo

que já vinha com gosto de despedida

sem eu saber.

Porque ali…

você já não era presença.

Era tela.

Era reflexo azul nos teus olhos,

digitando ausências

enquanto eu ainda te segurava no mundo real.

“É minha mãe”, você disse.

E eu —

bobo ou sincero demais —

preferi acreditar

do que encarar o começo do fim.

Naquela noite, te chamei.

E o silêncio…

ah, o silêncio é a forma mais cruel

de resposta.

Depois descobri:

você jogava, ria, existia —

só não comigo.

Eu fui ficando.

Como casa abandonada

que ainda espera alguém voltar

mesmo com as luzes apagadas.

No outro dia,

o mundo seguiu normal pra você.

Pra mim, não.

Eu te vi rindo no recreio,

falando de beijos

como quem troca de roupa,

como quem nunca vestiu sentimento.

Aquilo não foi ciúme.

Foi como ver

um quadro que você pintou com amor

sendo usado

como rascunho por outra pessoa.

Eu saí.

Porque ali eu já era sobra.

Mas ainda tinha mais.

Na saída,

você resumiu tudo em uma palavra:

“ficantes”.

Como se eu fosse passageiro

de uma viagem que eu achei que era destino.

E mesmo assim,

eu não quebrei.

Ainda.

Porque a queda de verdade

veio depois.

Horas mais tarde,

você voltou —

não como tempestade,

mas como lâmina.

Fria.

Precisa.

Direta.

Fotos.

Comparações.

Detalhes que ninguém esquece.

Você não falou —

você cravou.

Cada mensagem tua

foi um fósforo

num coração que ainda era inflamável.

E eu queimei.

Queimei tentando entender

como alguém que já foi abrigo

vira incêndio

sem nem olhar pra trás.

Você falava dele

como quem exibe um troféu,

enquanto eu…

eu era só o chão

onde você treinou cair sem se machucar.

E ali eu entendi:

não foi amor que acabou.

Foi o respeito

que nunca existiu inteiro.

Eu te bloqueei.

Não por raiva.

Mas porque ficar

era como respirar fumaça

achando que ainda era ar.

E mesmo assim…

mesmo com tudo em cinzas,

mesmo com o cheiro de queimado

ainda grudado na memória…

tem uma parte de mim

que lembra de você

antes do fogo.

Antes da tela.

Antes das mentiras.

Antes de você me ensinar

que nem todo “pra sempre”

sobrevive ao primeiro teste de verdade.

E talvez seja isso

que mais dói:

não foi você que eu perdi.

Foi quem eu achei

que você era.

  • Autor: Biscoitão (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 31 de maio de 2026 01:09
  • Comentário do autor sobre o poema: Esse poema é mais do que palavras, é um desabafo.\r\nÉ sobre amar de verdade e, mesmo assim, ser tratado como opção.\r\nSobre confiar, insistir, e no final perceber que o respeito nunca foi recíproco.\r\nEscrevi isso não pra atacar ninguém, mas pra mostrar que nem sempre quem mais sente é quem erra.
  • Categoria: Amor
  • Visualizações: 1
  • Em coleções: Rosa Mosqueta.


Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.