Pressão sobre pressão, noite após madrugada,
como chuva pesada numa estrada abandonada.
Eu junto meus pedaços, finjo estar inteira,
enquanto a dor me consome de maneira sorrateira.
Dizem que sou abençoada, que nada me faltou,
que a vida foi generosa, que tanto me entregou.
Por isso escondo as lágrimas atrás da gratidão,
como se sentir tristeza fosse uma traição.
Então sorrio cansada, mesmo querendo chorar,
porque parece proibido simplesmente desabar.
Carrego o peso do mundo sem ousar reclamar,
como se o meu sofrimento não pudesse contar.
Quando me fecho em silêncio para tentar respirar,
dizem que estou distante, que preciso melhorar.
Ninguém pergunta quantas guerras tive que enfrentar,
nem quantas vezes me quebrei para alguém não se quebrar.
Fui feita para servir, para ouvir e acolher,
para ficar quando todos decidem correr.
Fui feita para entender, para sempre perdoar,
mas raramente encontrei alguém disposto a ficar.
Sou ponte para travessias que nunca vou cruzar,
sou abrigo para tempestades que não consigo evitar.
Sou colo para o cansaço que os outros vêm deixar,
mas volto para casa sem ter onde descansar.
E dói.
Dói de um jeito quieto, difícil de explicar,
como um corte invisível que nunca vai fechar.
Como uma ferida antiga que aprendeu a respirar,
e que cresce em silêncio toda vez que tento amar.
Às vezes olho o espelho e mal consigo encontrar
a pessoa que fui antes de tanto me doar.
Há marcas que ninguém vê, mas insistem em ficar,
como fantasmas do que eu precisei sacrificar.
Enquanto todos recebem partes do meu coração,
eu recolho os restos que sobram pelo chão.
E vou montando a vida com fio e remendão,
escondendo nos sorrisos cada nova destruição.
Talvez eu tenha aprendido cedo demais a suportar,
a transformar sofrimento em motivo para continuar.
Talvez eu tenha esquecido que também posso chorar,
porque ninguém ensinou quem cuida a se cuidar.
Então sigo.
Com os olhos pesados e a alma ferida,
tentando encontrar sentido no peso da vida.
Guardando no peito uma tristeza contida,
que se senta ao meu lado e me faz companhia.
E o mais cruel não é a dor que me consome devagar,
nem as noites em claro sem conseguir descansar.
É ouvir que eu tenho tudo, que não devo lamentar,
como se aquilo que possuo pudesse o vazio curar.
Porque existem faltas que não moram na matéria,
existem ausências profundas, silenciosas e sérias.
Existem lágrimas que nascem de histórias tão antigas,
que o próprio coração esquece de onde vinham as feridas.
E assim vou vivendo, entre a culpa e a exaustão,
pedindo desculpas por sentir o peso da solidão.
Como se eu não tivesse direito à própria escuridão,
como se a dor precisasse de uma justificativa ou permissão.
Pressão sobre pressão.
E eu aqui, tentando resistir,
enquanto o mundo espera que eu continue a sorrir.
Porque fui feita para servir, para ajudar, para existir,
mas às vezes me pergunto quem estaria aqui…
se um dia eu simplesmente deixasse de fingir.
ou será que a resposta será simplesmente sumir...
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Autor:
exclamation girl (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 30 de maio de 2026 19:24
- Categoria: Triste
- Visualizações: 4

Offline)
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