Inventário de Perdas

A pseudoescritora

Perdi o dom de criar grandes planos.

Se um dia soube fazer planos.
Se um dia foram grandiosos.
Se um dia tive dom.

Perdi a audição,

pois escuto apenas discursos de desesperança,
vindos das mesmas pessoas
que um dia me ensinaram a acreditar no contrário.

Perdi o tato,

por não sentir há tempos um abraço.
Por reconhecer de longe despedidas.
Por colecionar feridas.
Por jogar fora histórias.

Tudo o que me restou foram os olhos,

e assim vi os dedos apontando a culpa.

Percebi que a solidão tinha asas,
nomes,
e, para alguns, até endereços.

Que o desespero tinha forma,
voz,
e roupa própria.

Perdi também a profundidade da humanidade.

Esperei.

Mas as pessoas ficaram menores.

Hoje cabem em vídeos de poucos segundos.

No espaço onde ninguém se encaixa,
mas todos se encontram.

Tudo bem centralizado,

no meio de um colapso.

Um dia possuí algo valioso.

Não lembro exatamente o quê.

Talvez fosse o dom.
Talvez fosse o tempo.
Talvez nem fosse algo tão valioso.

Talvez eu nunca tivesse o direito de possuí-lo.

Ainda assim,

lembro que o tive,
e sinto que o perdi.

  • Autor: A pseudoescritora (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 29 de maio de 2026 23:23
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 3
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