A casa acorda antes de mim.
O chão ainda está frio,
E a luz entra pela fresta
Como quem não quer ser notada.
Mas há algo no ar
Que não é falta
Nem presença.
As coisas permanecem nos mesmos lugares,
Mas parecem ligeiramente deslocadas,
Como se tivessem sido lembradas
Em vez de vividas.
O relógio faz sua função,
Mas não convence.
Os ponteiros passam
Sem realmente chegar.
O dia começa
Com a educação de sempre,
E eu respondo
Com o silêncio que aprendi.
Há uma xícara esquecida na mesa.
O café já esfriou
Antes de ser recusado.
Ninguém comentou.
As paredes sabem mais do que dizem.
Guardam ecos
De vozes que não ficaram tempo suficiente
Para virar memória nítida.
A janela sempre aberta,
Mas nada entra.
O vento apenas confirma
Que o mundo segue.
Os passos na rua
Têm um ritmo próprio,
Um compasso que não me chama,
Mas insiste em existir.
Há uma canção distante,
Vinda de algum lugar indefinido.
Não reconheço a melodia,
Mas ela me reconhece.
O corpo faz coisas definidas:
Andar, sentar, respirar.
Tudo acontece
Sem consulta prévia.
O coração, por sua vez,
Aprendeu a bater baixo,
Como quem não quer interromper
A ordem das coisas.
Há um peso discreto nos objetos,
Uma gravidade que não se mede.
As chaves no bolso,
Os sapatos ao lado da porta,
Tudo parece esperar algo
Que não foi relevado
O espelho devolve um rosto
Funcional.
Nenhuma pergunta.
Nenhuma resposta.
As horas escorrem
Com a paciência das coisas inevitáveis.
Nada dói o suficiente
Para ser chamado de dor.
A tarde se inclina
Com certa delicadeza,
E a luz começa a errar os caminhos
Dentro do cômodo.
Há beleza nisso,
Mas uma beleza que exige cuidado,
Como vidro fino
Esquecido no escuro.
Algumas lembranças passam
Sem pedir permissão.
Não chegam a se instalar,
Apenas atravessam.
Outras ficam,
Sentadas em silêncio,
Observando tudo
Como quem já esteve aqui antes.
A noite se aproxima
Após pedir licença.
As sombras crescem
Do jeito que sempre cresceram.
Nada termina...
Nada começa...
As coisas apenas continuam
Sendo o que são.
E no meio disso tudo,
Existe esse estado impreciso,
Esse intervalo
Entre o que foi sentido
E o que nunca se disse.
Não é uma tristeza declarada.
Não é vazio.
É um entendimento mudo
De que algo importa demais.
A casa fecha as janelas.
O dia se retira
Com a mesma educação com que entrou.
Fico.
Não esperando.
Não desistindo.
Apenas ficando.
Herik Batista, 29 de maio, 2026
-
Autor:
H.B (
Offline) - Publicado: 29 de maio de 2026 09:01
- Comentário do autor sobre o poema: Esse poema fala sobre existir no automático enquanto certas emoções ficam suspensas dentro da gente. Não é exatamente tristeza, mas um estado silencioso onde tudo continua acontecendo normalmente, mesmo com a sensação de que algo importante ficou mal resolvido dentro de mim. É sobre permanência, silêncio emocional e a maneira como algumas ausências mudam o peso das coisas sem precisar se anunciar.
- Categoria: Surrealista
- Visualizações: 2

Offline)
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