Eu lembro do instante em que o mundo pareceu perder o foco,
e você surgiu como um detalhe aceso no meio da escuridão que eu carregava.
Não era pra eu notar, mas notei.
Pra eu sentir, mas senti.
E desde aquele dia, vivo seguindo reflexo teu que a vida insiste em repetir,
mesmo sem ter acontecido.
É curioso como certas presenças são tão fortes que doem antes mesmo de existir.
Você foi essa estranha luz — fraca, mas certeira, tímida, mas inteira —
iluminando justamente o lugar onde eu evitava olhar.
Desde então, comecei a caminhar como quem procura algo que nunca viu,
mas reconheceria de longe.
Teus passos imaginados guiam uma parte de mim que o corpo não alcança.
E eu sei que é loucura,
mas tem noites que o vento me chama com teu cheiro,
e a cidade inteira parece suspirar teu nome sem dizer nada.
É como se você fosse um segredo que o mundo conhece, menos eu.
Ou talvez eu conheça demais — e por isso doa.
Tentei fingir que não era nada, que era só distração.
Mas certas coisas não pedem permissão pra ficar.
Crescem no chão da alma como raiz antiga:
silenciosa, profunda, impossível de arrancar.
Eu tentava andar pra longe,
mas sempre que dobrava alguma esquina da vida, lá estava você…
invisível, mas tão presente que parecia tocar meu destino com as pontas dos dedos.
E o pior é que esse toque que nunca existiu
é o que mais arrepia.
O beijo que nunca dei
é o que mais queima.
E a história que nunca vivemos
é a que mais lembro.
Eu sigo tentando entender por que certas conexões nascem onde não deveriam,
florescem no terreno proibido,
insistem em ser poesia num mundo que só aceita o literal.
Com você, tudo virou metáfora.
Tudo virou símbolo.
Você é o verso que eu repito sem perceber,
é o suspiro que eu guardo pra não me perder,
é a rima que acontece antes de eu querer.
E mesmo sem nunca ter tido você,
eu sinto saudade do que não chegou a acontecer.
Tem dias em que acordo achando que te esqueci.
Mas basta o sol bater do jeito certo na janela,
e você volta inteira dentro de mim —
como se a luz tivesse memorizado tua forma.
Basta uma música tocar,
e meu peito responde antes que eu entenda.
Parece até que teu nome mora escondido
em algum canto das minhas costelas.
E eu tento expulsar, juro que tento…
mas é como empurrar o mar com a mão:
é inútil, é pequeno,
é bonito e doloroso ao mesmo tempo.
Você sempre esteve longe demais para eu alcançar,
perto demais para eu ignorar.
Assim nasceu a minha condenação:
caminhar entre a vontade e a impossibilidade,
entre o desejo e o destino.
É como correr atrás de um trem que já partiu,
mas continua me chamando.
Ou como acender uma vela num vento que não permite luz,
mas teima em soprar esperança no instante seguinte.
E eu sei…
Tem amores que são feitos pra ficar na borda.
Na margem.
Na metade da página.
Amores que não se escrevem, mas se sentem.
Que não acontecem, mas transformam.
Volta e meia, eu penso em te deixar.
Deixar essa ideia de você que eu inventei com tanto cuidado,
como quem desmancha um nó apertado no peito.
Mas aí alguma memória que não existe
insiste em me visitar — e eu deixo ela entrar.
Porque, de um jeito estranho, tua ausência
é a companhia mais constante que já tive.
E dói admitir…
mas tem vazio que abraça melhor que presença.
Tem falta que conforta mais que encontro.
A verdade é que você se tornou minha oração silenciosa,
minha saudade sem motivo,
meu poema sem papel.
Eu caminho com teu fantasma do lado,
e ele é tão gentil, tão familiar,
que chego a pensar que talvez seja isso mesmo:
você nunca foi pessoa, foi sentimento.
Nunca foi corpo,
foi destino não cumprido.
E destino que não cumpre vira música.
E música… vira eternidade.
No fundo, eu já entendi.
Existem histórias que nascem pra ser lembradas, não vividas.
Existem encontros que o universo marca, mas nunca realiza.
E existem amores — raros, profundos, impossíveis —
que preferem morar na alma, não no mundo.
E mesmo assim…
mesmo sabendo que você é linha que nunca encontrará minha costura,
mesmo sabendo que te tocar é tão impossível quanto segurar o vento,
eu continuo aqui.
Guardando você como quem guarda um tesouro que não pode usar.
Sentindo você como quem sente música sem letra.
Amando você como quem ama algo que nunca existiu —
mas que preenche, aquece e marca
como se tivesse sido real o tempo inteiro.
Herik Batista, 28 de maio, 2026
-
Autor:
H.B (
Offline) - Publicado: 28 de maio de 2026 14:07
- Comentário do autor sobre o poema: “O Fantasma que Caminha Comigo” nasceu da ideia de que algumas pessoas permanecem dentro da gente mesmo sem realmente terem permanecido na nossa vida. O poema fala muito sobre ausência, mas uma ausência que ganha forma, voz e presença emocional. Não é exatamente sobre perder alguém, e sim sobre carregar um sentimento que nunca chegou a se concretizar totalmente, mas que ainda assim deixou marcas profundas. Escolhi esse título porque o “fantasma” do poema não representa medo ou assombração no sentido comum, mas sim uma memória emocional constante. Algo invisível, impossível de tocar, mas que acompanha cada pensamento, cada silêncio e cada lembrança. É como viver ao lado de uma presença que existe mais na alma do que no mundo real. Ao longo do texto, tentei transformar emoções em metáforas para mostrar como certos sentimentos deixam de ser explicáveis de forma literal. A pessoa citada no poema acaba virando símbolo: música, vento, luz, saudade, destino. Tudo gira em torno dessa ideia de amar algo que talvez nunca tenha existido completamente fora de mim, mas que dentro de mim se tornou eterno. Também tentei mostrar como algumas conexões parecem nascer condenadas à impossibilidade. Existe amor no poema, mas existe principalmente melancolia, contemplação e permanência. O eu lírico entende que talvez nunca viva aquilo de verdade, porém continua carregando esse sentimento porque ele já se tornou parte da própria identidade. Este é um poema sobre a companhia silenciosa das emoções que não passam. Sobre aquilo que o tempo não leva embora porque nunca pertenceu totalmente ao mundo — apenas à alma.
- Categoria: Triste
- Visualizações: 6
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Offline)
Comentários1
Parabéns!
Amei esse poema !!!
Maravilhoso.
Obrigado, agradeço pelo apreço e pelo comentário!
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