OS CALOS DA ALMA

Fábio Alves Leão

A alma também cria calos, bem escondidos,

Nas dores dos sonhos que foram partidos,

Nas noites compridas de pranto calado,

No amor que partiu sem ter se explicado.

 

São marcas que o tempo insiste em talhar,

Feridas que a vida não pôde evitar,

Mas todo calo, por mais endurecido,

Nasceu de um lugar que já foi ferido.

 

Há calos da perda, do adeus sem razão,

Da falsa promessa, da ingratidão,

Do peso do mundo nos ombros cansados,

Dos planos do peito no chão derramados.

 

E há quem confunda esses calos profundos

Com muros erguidos contra os vagabundos,

Mas eles são apenas sinais da batalha,

Da alma que tomba, mas nunca se espalha.

 

Pois quem nunca sofre, talvez não conheça

A força que nasce quando a dor recomeça,

O barro da vida, tão duro e tão frio,

Também molda pontes sobre o vazio.

 

Os calos da alma não pedem vaidade,

São marcas discretas da maturidade,

Ensinos gravados sem tinta ou papel,

Lições que não vêm embrulhadas em mel.

 

E embora endureçam um pouco o sentir,

Não foram feitos para o amor impedir,

Pois mesmo uma alma cansada e ferida

Ainda pode florescer para a vida.

 

Então, não esconda os calos que tens,

São provas das guerras vencidas também,

Pois alma sem marcas, talvez, não conheça

O valor da coragem que nasce da tristeza.

 

No fim, cada calo, em silêncio profundo,

É um jeito da alma aprender com o mundo,

E quem já chorou, mas insiste em amar,

Traz nos próprios passos a arte de se curar.

  • Autor: Brendon Leão (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 28 de maio de 2026 07:18
  • Categoria: Gótico
  • Visualizações: 3


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