O Cheiro

Andre Matheus

Entrou pela porta o móvel sagrado

Que veio do outro, de história estrangeira,

Trazendo consigo o horror camuflado

Na fibra ordinária de sua madeira.

 

Não era meu o tecido, a textura,

Mas veio o alheio reter meu espaço,

Trazendo na esponja a dor mais escura,

O cheiro da lama, do erro, do baço.

 

O olfato não mente: o cheiro do ralo,

Da podridão que o outro viveu,

Bateu na parede, ecoou no estalo

De um pesadelo que agora é meu.

 

A sala apodrece no aroma impregnado,

A desgraça alheia virou inquilina,

O cheiro do medo ficou ancorado

 

Na trama maldita que o vento domina.

É um perfume de perdas passadas,

Fotografia que o tempo azedou,

Memórias de vidas ali desgraçadas

Que o estofado do outro guardou.

 

Não há desinfetante ou vento que mude

A fixação desse cheiro fantasma,

Que expõe meus temores com exatidão,

E prende a minha alma no mesmo miasma:

O trauma do alheio na minha visão.

  • Autor: Andre Matheus (Offline Offline)
  • Publicado: 25 de maio de 2026 10:48
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 1


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