Manual não-autorizado para o uso indevido da poesia
Diante da incessante (e exaustiva) solicitação pública, fictícia e impopular, fui coagido a redigir este manual; documento que não explica nada, não resolve nada e, se tudo der certo, ainda complica.
Que destina-se a aspirantes a poeta, poetisas e aos demais indivíduos com inclinações suspeitas para o uso problemático da língua.
Manual não-autorizado para o uso indevido da poesia
E a quem ler, espero que faça pouco ou nenhum proveito.
Comecemos pela pergunta fundamental: o que é um poeta?
Poeta é o inquilino do intervalo. O descascado na parede. A mancha de caneta na camisa.
A última gaveta da cozinha.
Costuma carregar três vícios essenciais: a inutilidade produtiva, a imoralidade filosófica e a absoluta vocação para não morrer (pelo menos no papel). Em geral, são quase sempre indivíduos solitários e que ainda assim fornecem ótima companhia.
Em termos técnicos:
– inutilidade é todo instante que não serve para nada e, por isso mesmo, é absolutamente preciso;
– imoralidade é aquilo que é tão verdadeiro que só pode ser inventado;
– imortalidade é o que fica mesmo depois do estrago.
Mas, acima de tudo, para ser poeta, é necessário ser um exímio mentiroso (e vice-versa).
Dito isso, vamos ao ponto: como se produz um poema?
Ao contrário do mito popular, escrever poesia não exige musas, tempestades, garrafas de vinho, sequer romantismo.
Poesia é um ato irreversivelmente simples e exige apenas um certo desajuste, uma ligeira e fatal febre, uma disposição para costurar retalhos que é insistentemente involuntária.
Qualquer mamífero com estômago está apto a escrever poesia (especialmente os que têm o estômago vazio).
O processo é simples e envolve três passos:
A coleta: ficar rente ao chão e observar o que é esquecido.
A costura: unir o que nunca esteve junto.
A exibição: gritar em praça pública e fingir naturalidade.
Há milhares de palavras soltas orbitando o ar ao redor da cabeça a todo instante, lavras e mais lavras de palavras. O papel do poeta é evocar colisões. Registrar quando duas palavras que nunca se olharam dividirem a mesma calçada, tropeçarem na mesma esquina. Criar sabores novos na língua. E é fundamental que ninguém tenha pedido isso.
Se quiser falar de amor, por exemplo, jamais escreva “te amo profundamente”.
Isso não alimenta fome alguma.
Prefira algo como: “Deslizo para dentro do intervalo onde teu nome respira.”
Ou: “Misturo-me ao fino assobio das coisas devotas a ti.”
Se disserem que não faz sentido, agradeça.
Se lhe elogiarem, tente novamente.
É preciso reinventar e alargar a língua.
E, para poemas de amor, é sempre essencial estar desiludido.
Agora, as regras fundamentais:
(Que tomei a liberdade de inventar com toda a autoridade que não me foi concedida)
Nunca rime isto com aquilo. Rima é visita: só vem quando quer, e, se não quer, não a convide-a.
Nunca negocie com a gramática. Use-a apenas quando ela estiver distraída.
Nunca diga a verdade pela verdade, não fale de si, minta.
Procure sempre o que é bonito em todas as coisas aparentemente desprovidas de beleza.
E, por último e mais importante:
Desrespeite, sempre que possível, toda a tradição literária.
(Fantasmas hão de lhe perseguir; isso ajuda o processo criativo.)
O bom poema é aquele que desafia, é preciso coragem.
O bom poema tem sabores distintos, é preciso certo conhecimento de culinária.
O bom poema é aquele que diz sem dizer, é necessária profunda covardia.
O bom poema é imaterial, exige atributos básicos de astrofísica.
Para treinar, deixo alguns exercícios:
( Que sempre me foram de grande inutilidade sensível)
– Escreva uma declaração de amor para um desconhecido.
– Escreva notas de rodapé sobre os latidos dos cães, de preferencia no idioma nativo.
– Sente-se em silêncio próximo a uma árvore e anote tudo o que ela não disse.
– Converse com um idoso sobre algo que nunca aconteceu.
– Pergunte a uma criança a opinião dela sobre geopolítica.
– E, se possível, escute seus sonhos como quem escuta notícias.
E, antes que me esqueça, jamais obedeça qualquer manual sobre como fazer poesia.
No próximo módulo, veremos como temperar advérbios, dourar adjetivos, texturizar verbos e desossar conectivos.
Depois seguiremos para estudos avançados de neologia e psicografia.
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Autor:
Victória Bianca (
Offline) - Publicado: 23 de maio de 2026 16:39
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 2

Offline)
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