Existe um silêncio estranho
que nasce depois das conquistas
Ninguém fala sobre ele
Falam sobre o topo
sobre o esforço
sobre vencer
Mas não sobre o vazio
que espera a gente
depois dos aplausos
Eu conheço bem esse vazio
Ele me acompanha
como sombra
Porque toda vez que o mundo olha pra mim
e diz
“você conseguiu”
alguma coisa dentro de mim
responde baixinho:
“não o suficiente.”
E dói
dói de um jeito silencioso
Como chuva entrando por uma janela aberta
durante a madrugada
Devagar
fria
constante
A medalha repousa nas minhas mãos
mas meus olhos procuram o ouro
que não veio
A aprovação chega
e ao invés de felicidade
eu conto as portas
que permaneceram fechadas
Até a felicidade
vira comparação
Até os sonhos
perdem o gosto
quando finalmente acontecem
Eu transformei minha própria existência
numa eterna linha de chegada
E talvez o mais triste
seja perceber
que nunca me permiti parar
Nunca me permiti olhar para mim
com ternura
Só com cobrança
Só com exigência
Só com essa fome impossível
de ser perfeita
Às vezes eu me pergunto
se ele estaria orgulhoso de mim
Mas como alguém poderia sentir orgulho
de uma pessoa
que reduz as próprias vitórias
a quase nada?
Então eu continuo correndo
Mesmo cansada
Mesmo vazia
Mesmo ferida
Porque passei tanto tempo acreditando
que meu valor dependia do que eu conquistava
que agora não sei mais existir
sem tentar provar alguma coisa
E no fim de tudo
quando a noite apaga o barulho do mundo
e eu finalmente fico sozinha comigo
eu percebo
que minha maior tristeza
nunca foi fracassar
Foi nunca conseguir sentir
que eu merecia vencer.
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