A bicicleta sofreu um soluço metálico
e o bairro inteiro inclinou alguns graus para a esquerda.
Lembro do guidão vazando sol cromado.
Lembro das árvores mastigando vento verde sobre os fios elétricos.
Lembro do asfalto respirando calor preto
como um pulmão industrial adormecido sob a rua.
Então meu joelho abriu.
Não feriu.
Abriu.
Como elevador hidráulico tentando revelar um andar biológico proibido.
A pele recuou em cortinas nervosas.
Debaixo dela,
uma geografia vermelha começou a pulsar
feito intestino elétrico embrulhado em luz de ambulância.
O sangue não escorria.
Ele negociava saída.
Fios líquidos atravessavam minha canela
com lentidão odontológica,
pingando pequenos planetas ferruginosos no concreto fervente.
E imediatamente o mundo perdeu ergonomia.
As casas da rua ficaram longas demais.
O céu desenvolveu textura de gaze mastigada.
Os cachorros do bairro começaram a latir
como televisões afogadas em água benta.
Olhei para o machucado
e tive a sensação microscópica
de que alguma coisa estava montando móveis dentro da minha carne.
Meu joelho respirava.
Respirava mesmo.
Expandia e contraía devagar
como uma guelra recém-instalada por engano no corpo de uma criança.
Eu conseguia ver camadas demais do organismo.
Carnes brilhando molhadas.
Brancos cartilaginosos.
Pequenas fibras rosadas tremendo
como minhocas cirúrgicas tentando fugir da luz da tarde.
Era obsceno.
Nenhuma criança deveria descobrir tão cedo
que o corpo humano é apenas um apartamento de vísceras mal selado.
Minha mãe correu até mim
atravessando o calor da rua
com rosto de sirene doméstica.
Mas sua voz chegava deformada.
Parecia atravessar aquários cheios de ferrugem líquida.
Então veio a água oxigenada.
E o joelho enlouqueceu.
A ferida começou a espumar violentamente
como um animal branco sofrendo combustão espiritual.
Bolhas nasceram da carne.
Pequenos tumores transparentes estourando em sequência
sobre o vermelho exposto do meu organismo infantil.
A dor ficou fosforescente.
Tão intensa
que achei que meus ossos
estavam tentando evacuar o corpo pela abertura recém-fabricada.
Chorei saliva elétrica.
O bairro inteiro parecia me observar.
As janelas respiravam.
As antenas tremiam devagar.
Os carros estacionados possuíam olhos cromados
fixos no buraco úmido crescendo abaixo da minha patela.
Naquela noite,
o curativo latejava.
Debaixo dele,
o joelho continuava trabalhando.
Eu sentia.
Sentia pequenos movimentos industriais
acontecendo dentro da crosta.
Como se operários microscópicos
estivessem reconstruindo a tragédia com ferramentas de nervo e pus.
A coceira começou no terceiro dia.
Não coceira humana.
Coceira litúrgica.
Uma necessidade vulcânica de arrancar a casca endurecida
e contemplar novamente o abismo glandular escondido embaixo dela.
Porque parte de mim queria ver.
Queria verificar se o machucado ainda estava vivo.
Se ainda respirava carne quente no escuro.
Se ainda produzia aquele brilho vermelho de frigorífico celestial.
Até hoje,
quando olho cicatrizes antigas,
tenho a sensação de que elas continuam abertas em dimensões menores.
Pequenas bocas anatômicas escondidas sob a pele.
Esperando silenciosamente
o próximo acidente hidráulico da existência.
-
Autor:
Orfeu Ferrugem (
Offline) - Publicado: 17 de maio de 2026 22:41
- Categoria: Surrealista
- Visualizações: 1

Offline)
Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.